Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

Elogio Póstumo



Se as personalidades — as carradas de personalidades — que infestam os diferentes canais de rádio e de televisão cá da terra, para falarem da situação económica do país, perceberem tanto dessa poda como percebem de educação aqueloutras que, tendo notoriedade noutras áreas — como a do jornalismo e a da literatura, por exemplo —, vêm a terreiro dizer umas quantas generalidades, vulgaridades e clichés sobre o que se passa no sistema de ensino… estamos aviados.

O nosso primeiro-ministro é um bom exemplo de alguém que muito decide e fala de educação e que percebe tanto disso como eu de lagares de azeite. Praticamente no mesmo dia em que pulou da varanda a nova matriz curricular do segundo e do terceiro ciclo do ensino básico — pondo termo a Área de Projecto e Estudo Acompanhado — o homem veio a terreiro enaltecer o contributo que estas áreas (porque muitas escolas decidiram dar-lhes alguma serventia, anexando-as à Língua Portuguesa e à Matemática) terão dado para os “vistosos” resultados do PISA 2009. Elogio fúnebre, quase póstumo.

É claro que não vou ser mauzinho a ponto de dizer que Sócrates desconhecia as intenções do ME. Claro que não! Mas desafio o senhor primeiro-ministro a dar sentido a esses fósseis e a fazer justiça às muitas escolas que se adiantaram às reformas anunciadas: com as horas retiradas a essas áreas, reforce a componente lectiva (prática) de Língua Portuguesa e de Matemática. A literacia dos alunos agradecerá e evitar-se-á que muitos professores fiquem no desemprego.

Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

Negros Anos


Penso que a dita “Blogosfera Docente” poderia — a bem da nação — reunir em Coimbra, no final do mês de Janeiro, para os respectivos editores se conhecerem, para balanço da actividade, definição de estratégias de actuação e, sobretudo, de colaboração.

Na minha modestíssima e insignificante opinião, falta à “Blogosfera Docente” uma noção de unidade na diversidade. Corre, por isso mesmo e por algum excesso de individualismo, o sério risco de se transformar num gigantesco amálgama de músicos a tocarem o silêncio. 

Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

Memento



As horas atribuídas ao exercício de cargos seguem “numa direcção certa”: a da componente não lectiva.

O pagamento pela correcção dos exames nacionais segue “numa direcção certa”: a da escravatura.

A dignidade dos professores segue “numa direcção certa”: a da pelintrice.

Em Abono da Verdade


Imagem retirada daqui.

Domingo, 12 de Dezembro de 2010

Os Seis Caminhos


Qual será mesmo o caminho (certo) por onde trilha a nossa INDUCAÇÃO?


A Terra do Nunca?

O País das Maravilhas?

O mundo de Pinóquio?


O pântano do Shrek?


Duloc, o lugar perfeito?


A Torre de Pisa?

Da Finitude


Eu sempre achei que, para lutar, bastava ter uma razão! Outros defenderam que, para tal, eram necessárias muitas condições. A arrasadora maioria dos professores seguiu este caminho. Embora não se tenha feito justiça a uma causa, fez-se democracia, pois prevaleceu a vontade da maioria.

Eu, que sempre quis que o meu peito fosse alegoria de resistência e de luta, sinto-me agora a mais neste campo! Já não faço falta na blogosfera docente! A minha retirada, como já sugeri aqui, está para breve! 

Sábado, 11 de Dezembro de 2010

Falar e Aular?


Ainda agora pergunto a mim mesmo como pôde Miguel Macedo dizer a José Sócrates que Portugal, em matéria de Educação, “está numa direcção certa”. Se, ao menos, tivesse dito “numa certa direcção”, estaria certo o deputado, mas não disse. Miguel Macedo disse exactamente o que pretendia e como pretendia. Foi à queima-roupa, no nosso peito!

É o desprezo total por tudo quanto os professores têm vindo a dizer. É o golpe mais infame que o PSD nos poderia ter desferido. É uma afirmação “assassina” relativamente a qualquer resquício de esperança que pudéssemos ter neste partido. É ainda a expressão perfeita de quem nos considera absolutamente incapazes de reagir, moribundos ou já mortos, absolutamente irrelevantes em matéria eleitoral.

E agora, professores? E agora? Digam agora os intelectuais e os estrategos da praça o que é que vamos fazer. Falar e aular?

Peru de Natal


Já no ano passado — em Novembro, precisamente — o PSD nos deu ao PS como prenda de Natal antecipada: lembrar-se-ão, certamente, da tristemente célebre “questão de semântica” do deputado Aguiar Branco. Como Sócrates gostou, decidiu o partido de Passos Coelho dar-nos novamente este ano, mas como peru para a consoada: «o país está numa direcção certa» em matéria de Educação.

Finalmente, quebrou-se o silêncio conivente do PSD, que decidiu revelar-se como partido apoiante das políticas seguidas pelo Governo na pasta da Educação. Tal como eu disse no meu artigo “PISA-STÔRES”, parece que os resultados do PISA 2009 serviram mesmo para sermos mais pisados, e serviram também para que esta união de facto fosse assumida perante os Portugueses, contra os professores. Se os dois partidos, que fazem alterne na governação há muitos anos, aprovam com distinção o rumo seguido e seus resultados, então os professores é que estão errados e andam a enganar o país com as suas lutas mesquinhas contra o progresso. Então os professores é que, de facto, são os preguiçosos de serviço, pois está provado que, apertando um pouco estes malandros que nós somos, os resultados começam logo a aparecer. Está provado ainda que é mentira tudo aquilo que dizemos sobre a degradação da qualidade do ensino nas escolas. Está provado, finalmente, o assentimento do PSD face aos encerramentos de escolas, em massa, que acentuaram as desigualdades em desfavor do interior do país.

O pior é que já nem consigo sentir revolta contra este partido Pilatos. Uma seca desilusão é a única forma de vazio que me invade. Sei agora que não temos esperança. Sei agora que este partido não será alternativa para nós. Sei agora que esta gente, se ganhar as próximas eleições — o que já ponho seriamente em causa — jamais escolherá para ministro da Educação um homem, ou uma mulher, com ideias próprias e bem alicerçadas sobre educação e ensino. Sei agora que esta gente jamais quererá um Homem como Santana Castilho na pasta da Educação. O PS e o PSD, depois deste enorme bacalhau parlamentar, vão comer-nos como peru, neste Natal. E sabem porquê? Porque nos calámos! Sim, porque falar na Net, nos jornais e na televisão é o mesmo que estar calado: “ladramos”, enquanto a caravana passa.

Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

Horas Mortas


Da minha atalaia, já não vejo senão um lastro feito de lona escura. Nos campos nus, que adivinho no negrume das horas mortas, apenas serenam palavras que são silêncio e pó. Já foi tempo de crença e de força, tempo de alma e coração. Já avistei daqui o clarear da manhã e o enverdecer das estações. Hoje, contudo, soa  mudo e inútil o timbre da minha voz e já não vejo rebentos para renovar o tempo. A Primavera não quer acontecer.

Da minha atalaia, sobreponho a memória à viuvez da noite e encho o breu de movimento e cor. O meu olhar rejeita a negação e pinta hastes, bandeiras e cavaleiros andantes progredindo no nastro incerto do futuro. Fomos deuses enquanto acreditámos! Tivemos o tempo anichado na mão, como um menino, quando soubemos ser magos da nossa fé. Porém, agora já somos. Não soubemos merecer! Deixámos agrilhoar a nossa alma às paredes frias de uma razão filha de amanhãs que nunca vão nascer. Somos um corpo eternamente adiado, um esporo à espera de um gineceu que não virá. 

O Meu Sonho (desfeito)



Este vídeo — um dos últimos trabalhos do Dardomeu — foi publicado no dia 24 de Abril deste ano, como sumário plangente de dois anos de entrega diária a uma causa na qual acreditei com todas as células. Entretanto, acabei por criar este blogue, em Junho último, acrescentando assim mais seis meses à minha peleja. Foram seis meses de entrega estóica, à sobreposse, tendo, amiúde, apenas a solidão como companheira.

Logo que tenha umas migalhas de tempo, escrever-vos-ei, colegas de todo o país, para vos mostrar o que me vai na alma, neste momento de carvão e cinzas.

Quando éramos "Homo Erectus"

Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

Tríade da Rosa Dourada


Como os meus alunos não foram seleccionados para a duríssima prova do PISA, impede-me a honestidade de aceitar os parabéns do nosso primeiro-ministro e de Isabel Vilar. Venho, pois, por este meio, devolvê-los à procedência.

Em bom abono da verdade, devo dizer que considero José Sócrates, Lurdes Rodrigues e Valter Lemos os grandes obreiros de tão brilhante classificação. Um fortíssimo aplauso para a nossa tríade da rosa dourada! 

Sem Comentários

Santana Castilho


Deve o Estado financiar o ensino privado?

in Público, 8/12/2010


Um decreto-lei do Governo, que altera as condições de financiamento das escolas privadas por parte do Estado, provocou uma onda de protestos e tomadas de posições públicas. Consideradas as responsabilidades dos protagonistas, a relevância da matéria em análise e o menor rigor de algumas afirmações apresentadas como factos, julgo pertinente acrescentar ao debate os argumentos que se seguem:

Ler o resto da crónica no blogue Santana Castilho.

Carta Aberta ao Luís Costa

Inferno, 08 de Dezembro da Eternidade

      Inconveniente Luís Costa,

Escrevo-te apenas para te dizer que já não suporto essas tuas prendas natalícias. Até ao Diabo tu fazes perder a paciência! Irra! Visto que já é a terceira vez que me ofereces essa tralha — e antevendo que, se não tomar medidas drásticas, tu continues a importunar-me anos a fio — decidi aceitá-la, mas só em parte: a última, aquela que te contém a ti e aos teus miseráveis blogues. Desta forma, fica também amputada qualquer tentativa de me voltares a impingir aqueles cacaréus repelentes. 

Como vês, não sou tão feio nem tão mau como me pintam. Pensarão muitos — tantos e tantos que estão ensopados de preconceitos contra mim — que eu vos removo porque sois maus. Nada disso! As pessoas ou são curtas de vista ou então julgam-me tolo. Eu vou remover-te — ainda que extremamente contrariado, porque, ao fogo dos meus critérios, tu és uma pessoa muito ruim e uma indesejável companhia — para que as ervas do Mal continuem a grassar à vontade nesse vosso sistema malucativo. Também eu, meu escusado inimigo, sei fazer os meus sacrifícios em prol de benefícios maiores. Tenho cauda, mas não sou burro! E nem sequer sou tão injusto como vós, ó mortaizinhos presumidos aí da Terra do Nunca!

Afinal, quem é que castiga os maus, todos os maus? Sou eu e só eu, pois claro! Vós deveríeis, neste campo, inspirar-vos em mim, pois, ao fim de contas, nem assobio para o lado, nem me submeto aos maus nem colaboro com eles, a não ser nas muitas traulitadas que lhes dou aqui no quentinho. Como podeis julgar-me tão mau, se eu os trato tão mal? Trabalho em perfeita articulação com Deus e cumpro escrupulosamente a minha parte: Ele fica com o mais fácil (ter os bonzinhos lá no Céu) e eu faço o trabalho sujo (trazer a escumalha toda para aqui e aturá-la uma eternidade). Também este trabalho de articulação vos deveria inspirar, ó professorezecos, que ides de reunião em reunião até à desunião final e não articulais nada que preste.

Termino, com uma gostosa inconfidência: muitos dos teus colegas que[i] me encomendaram a alma, fartos de tanto os importunares com as tuas baboseiras e com essa mania do inconformismo e da luta, estão constantemente a pedir-me — por telepatia, claro — que te cale de uma vez por todas. Assim sendo, e para te provar que também sou democrata, vou fazer a vontade à maioria, indo até contra a minha própria vontade: vou desembrulhar-te na noite de Natal.

                                                                                                           Diabo



[i] Atenção, que a oração é relativa restritiva!

Olha o Balão!

Senhora ministra,

Não cuide que me esqueci daquela manápula metida no bolso dos professores, quando decretou o não pagamento pela correcção dos exames nacionais! Uma vez mais, à semelhança do que aconteceu no Verão, quando lançou o foguete do fim das retenções, para evitar as cataratas de notícias sobre o encerramento de escolas e sobre os abortos dos mega-agrupamentos, uma estrelinha voltou a brilhar no firmamento.

Não há dúvida de que os resultados do PISA/2009 e a escapadela da informação sobre a revisão curricular vieram mesmo a calhar! Pensará a senhora que já temos milho para ir debicando até esquecermos a traulitada de anteontem! Pois... faça o favor de continuar pensando!

Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

PISA-STÔRES


Ou eu já me passei definitivamente para o lado do contra — e ainda não me apercebi — ou tenho mesmo razões para não estar nada eufórico, nem com os resultados do PISA 2009, contrariando a corrente, nem com os elogios envenenados de Sócrates e de Isabel Vilar.

Em primeiro lugar, não sou muito dado a acreditar em súbitos saltos de gigante, no que toca a literacias, crescimentos, mentalidades, civismos… Quanto às primeiras, e pensando sobretudo nas de Língua Portuguesa, eu tomaria muitas cautelas e caldos de galinha antes de lançar os foguetes luminosos no céu escuro. Há que analisar primeiro tudo o que está a montante — o teor da prova, por exemplo — e, depois, escutar a prudência, que manda esperar a consolidação destes resultados nos próximos anos. É que, se voltarmos a cair, levamos connosco todo o arsenal pirotécnico.

Em segundo lugar, não me agrada absolutamente nada a correlação excessiva que as duas figuras mencionadas estão a estabelecer entre os resultados e o desempenho profissional dos professores. Por um lado, isso quer dizer que o insucesso dos alunos também nos deve ser imputado em idênticas proporções. Por outro, todo esse discurso hiperbolicamente encomiástico traz esta mensagem implícita nas catacumbas do rodapé: “Estão a ver como tem valido a pena espremer estes valentes preguiçosos! Estão a ver como são eles os culpados do sistema! Vale ou não vale a pena continuar a apertá-los, a injectar-lhes doses cavalares de formação?! Vós, ó pais e encarregados de educação, não precisais de vos maçar muito com a cooperação estratégica, pois todos sabemos como fazer o acorde "Mi sobre Si sem Dó" para que a orquestra toque afinada.”

Acho que este PISA só vai servir para sermos ainda mais pisados.

Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?

Cesare Maccari - "Cícero denunciando Catilina"

Mote
«Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há-de precipitar a tua audácia sem freio?»
                                                                                  Cícero

Glosa
Foi assim que Cícero, no ano 63 a.C., iniciou o primeiro dos seus célebres discursos contra o subversivo Catilina — Catilinárias —, abrindo assim, desta forma denodada e inteligente, as portas para o seu definitivo afastamento. Foram estas palavras do sábio orador romano que me vieram ao espírito, quando li, na imprensa desta manhã, as palavras que traduziam as desavergonhadas intenções da nossa ministra da Educação relativamente ao não pagamento aos escravos pela correcção dos exames. Mais um roubo descarado e um enxovalhamento público de quem nos ama e ama a Educação.

Temos um Governo desesperado. Atendendo ao passado recente, devemos supor que são reais as probabilidades de a situação financeira ser bem mais grave do que aquela que nos é apresentada. Assim sendo, e como a necessidade aguça o engenho, será prudente considerar que a imaginação desta gente não tem freios, quando se trata de sacar dinheiro aos mais calados, aos mais acomodados, aos mais vergados, aos mais acobardados, aos mais enfraquecidos.

Esta situação de saque permanente só vai conhecer um termo quando os professores se levantarem de novo, se unirem aos seus sindicatos e disserem um rotundo NÃO. O monstro já se habituou ao tempero das nossas lamúrias, ao sabor agridoce das nossas imprecações, à textura estaladiça das nossas ossadas. E vai continuar a comer-nos, com esgar de gostoso sadismo, se não lhe entalarmos um valente fémur na garganta despudorada.

Domingo, 5 de Dezembro de 2010

O Meu Pinheiro Escolar


O meu pinheiro escolar
Todo assinado de cruz
O meu pinheiro escolar
Todo assinado de cruz
Celebra em jeito de cansaço
Que ao fracasso nos conduz
O meu pinheiro escolar
Todo assinado de cruz

O meu pinheiro escolar
É um montão de papel
O meu pinheiro escolar
É um montão de papel
Tem os meninos a curtir
Os professores a compilar
O meu pinheiro escolar
É só balela a brilhar

O meu pinheiro escolar
Todo ditado de cor
O meu pinheiro escolar
Todo ditado de cor
Celebra em jeito de cansaço
O esbanjamento do labor
O meu pinheiro escolar
Todo ditado de cor


Pinheiro branco abismal
Teu branco não é saber
Pinheiro branco abismal
Teu branco não é saber
E de Setembro ao S. João
É ver-te sempre a crescer
Pinheiro branco abismal
Tu és Babel nacional

Luís Costa

Primeira publicação: 21 Dezembro 2009

Sábado, 4 de Dezembro de 2010

Sapatinho do Diabo III


Pobre Diabo,

Há dois anos, ofereci-te um cabaz de prendas, mas tu não as vieste buscar. No ano passado, enchi um saco bem cheio, mas… só vieste reclamar uma: “divisão dos professores em titulares e professores”. E, no entanto, eram todas tão lindas! Olha só:

- novo regime de gestão escolar;
- sistema de avaliação de desempenho docente;
- estatuto do aluno;
- aulas de substituição;
- componente não lectiva de trabalho no estabelecimento;
- projecto curricular de turma;
- planos de recuperação;
- planos de acompanhamento;
- planos de desenvolvimento;
- áreas curriculares não disciplinares;
- portefólio;
- Magalhães.

Tendo em conta o teu aparente desinteresse, vejo-me compelido a pensar o seguinte: ou são tão más que nem tu as queres, ou já tens o Inferno cheio de boas intenções ou… ou… queres algo diferente, algo inédito, algo… Olha, talvez tenha três prendas que possam interessar-te:

- Dardomeu;
- DaNação;
- eu próprio.

Diz-me lá que isto não é um cabaz dos diabos!

Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010

Herói Nacional


Já ontem era tarde para, com toda a justiça e mais alguma, reconhecermos este novo herói nacional. Enquanto muitos soldados abandonaram as trincheiras e muitos outros se aburguesaram com o “inimigo”; enquanto outros tantos se renderam e um Titanic cheio de muitos e muitos mais acabou por se afundar sob o peso da avaliação, este ser ímpar, de um supremo denodo, tem-se mantido na linha da frente, de tronco firme, peito aberto, busto levantado. Homenageá-lo é a mais elementar das justiças deste mundo!

Mas, afinal, quem é tão proeminente figura?
Calma, leitor! Vamos por partes e devagarinho! Anda daí, segue-me!

Quem ainda sabe dizer “Não”? O Tanas.
Quem se opõe terminantemente ao sistema de avaliação? O Tanas.
Quem recusa trabalhar mais do que 35 horas para a escola? O Tanas.
Quem recusa trabalhar noite e dia nas escolas? O tanas.
Qual é o director de turma que rejeita funções que a Lei não prevê? O Tanas.
Quem repudia as tarefas inúteis que imbecilizam o professor? O Tanas.
Quem nega produzir dados estatísticos e preencher grelhas? O Tanas.
Quem ainda luta pela devolução da componente não lectiva roubada pelo Governo ao nosso profissionalismo? O Tanas.
Quem ainda luta contra as injustiças que esta ADD gerou? O tanas.

Poderia estar aqui toda a noite a desenvolver um relambório sem fim, mas seria como chover no molhado. Iríamos sempre bater à porta do Tanas.

O Tanas é Herói Nacional, com maiúscula!

Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010

A Dona Autonomia, essa falsa!


Após a leitura do meu artigo “Séquito Lúdico”, algumas pessoas arranjaram pretexto para me julgarem capaz de ser um acérrimo defensor do centralismo, uma vez que usei a ironia para me referir à utilidade dos regulamentos internos e dos projectos educativos. Trata-se de um equívoco dos leitores, como é óbvio! Na verdade, eu apenas sinto desprezo por estes documentos quando eles não passam de folhas que absorveram tinta, tempo, paciência… A mim, estes documentos fazem-me lembrar um pobre pedinte que, em frente à montra de um supermercado, palitava os dentes, enquanto os frangos iam rodando no assador. Depois, bebia um copito na taberna e ficava composto para o dia inteiro.

Um projecto educativo, no meu tacanho entender, só faz sentido se, de facto, for um naco de autonomia. Caso contrário, mais vale voltarmos ao modelo anterior. Pelo menos não continha ilusionismo nem exigia inúteis perdas de tempo e de energias. Em que é que estes projectos educativos e estes regulamentos internos diferenciam umas escolas das outras? Salvo raras excepções — como é o caso da Escola da Ponte —, as diferenças são como entre o vermelho e o encarnado. Valerá a pena tanto investimento apenas para decidir minudências?  Eu penso que não.

O Ministério da Educação escolhe o currículo, os programas das disciplinas (em versão maximalista e ao mínimo detalhe), as cargas horárias, os minutos que devem durar as aulas, a componente não lectiva (de trabalho individual e de escola), as aulas de substituição, a obrigatoriedade dos planos de recuperação, de acompanhamento e de desenvolvimento, os projectos curriculares de turma… Através dos seus mecanismos de controlo no terreno, impõe práticas, documentos, registos, instrumentos de avaliação e de auto-avaliação… Quem está atento ao dia-a-dia dos nossos estabelecimentos de ensino tem consciência — julgo eu — de que nunca houve tanta ingerência da tutela no modus operandi das escolas. É caso para dizer que tanta autonomia já chateia! Irra!

Afinal, o que é que nos sobra de realmente palpável, de substancial para decidir? Projectos “eunucativos” recheados de conversa fiada e de promessas de ir melhorando os dados percentuais do sucesso escolar, a gosto e a preceito das passerelles estatísticas da União. Como dizia o Cavadas, que, apesar de ser labrego, era um homem honesto com o seu quê de filósofo, “muito ajuda quem não estorva”. 

Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010

Tiki Rumusse


ADVERTÊNCIA - Texto capaz de chocar a comunidade científica.

Tem andado a torcer-me o focinho desde o dia em que publiquei, pela terceira vez, a crónica dedicada ao Landocas, o meu cão. Então, quando se apercebeu da popularidade que esse texto tem tido… Só quem tem gatos em casa é que sabe realmente do que estou a falar: tresandam a ciúmes. De modo que... me senti na obrigação de calar os seus miaus e os seus renheunhéus de resmunguice.

Gosto sobretudo da sua nobre altivez. Do cume do seu ar imperial — o Tiki pertence à família dos Rumusses, uma longeva linhagem de czares felinos — ele segue, serenamente, todos os meus passos. Contudo, aqueles redondinhos olhos verdes jamais deixam escapar o mínimo resquício de subserviência. Consigo mesmo adivinhar, nos seus insondáveis bastidores, um pequeno cérebro capaz de pensar que é meu dono. E, na verdade, confesso que ainda não tenho resposta cabal para essa questão. Objectivamente, ele pertence-me. Contudo, não consigo obrigá-lo a fazer nada contra a sua vontade. Mesmo na dosagem de festinhas o danado faz questão de definir claramente os seus limites: levanta-me a pata, não para me arranhar, mas como quem expressa um terminante “Já chega!”. E eu paro, não vá ele lembrar-se de pôr o seu instinto a funcionar e mostrar-me cinco unhas que nunca conheceram a civilização.

Como todos os gatos, o Rumusse tem aquele lado ternurento, ainda que interesseiro, ao qual é difícil resistir. Quando quer comer — sobretudo nessas ocasiões —, ele enrosca o seu lombo amarelado nas minhas pernas, dá-me turrinhas e focinhadinhas, seduz-me com os seus renheunhéus cheios de mel e geleia e… consegue sempre derrubar as muralhas da minha firmeza. Deve ser por isso que os seus olhinhos têm aquele espectro aristocrático. Tal como uma ex-virgem arrependida, também eu acabo sempre revoltado comigo mesmo: aquele serzinho de aço consegue fazer-me resvalar para as ingratas ravinas da parcialidade. Tenho de admitir que, nesse domínio, ele explora com mestria as minhas fragilidades afectivas. Resultado: acaba sempre por comer mais vezes do que o cão; vive em casa, enquanto o outro mora na garagem; está sempre a ronronar em paninhos e sofás; refastela-se nos tapetes macios e ostenta, escandalosamente, o seu invejável êxtase, quando dormita ao lado dos radiadores. Fico frustrado, furioso mesmo, por ser um minúsculo animalejo a provar-me que não sirvo para director.

Será por saberem viver que estas criaturinhas têm nove vidas?

Já professor não sou!

Bocage

A docência, aquela docência que me trouxe para os trilhos vitalícios da Escola, está completamente esfrangalhada. Da docência que fazia dos professores mestres, apenas restam alguns resquícios que já não chegam para enganar uma vocação. Tal como o poeta, também eu estou tentado a dizer:

«Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...».

Ser professor, hoje, é viver um frustrante paradoxo: é ter a profissão às costas, a tempo inteiro, como um caracol, e sentir que não há tempo para pensar na espinal medula da nossa missão. Ser professor, hoje, é ter um dia-a-dia quadriculado, uma essência fragmentada em centenas de folhas de papel, de registos vesgos que nada sabem de pedagogia e que detestam os alunos. Ser professor, hoje, é… uma vertigem.

A um ritmo alucinante — louco — tudo muda constantemente, diariamente, como um vulcão ansioso, em constante rodopio, prestes a eclodir: são as leis, os decretos, os despachos, as circulares, as escolas, os agrupamentos, os cursos, os programas, as terminologias, os regulamentos, os projectos, as actas, as grelhas, os grelhados, os assados, os cozidos… Tudo muda, tudo se complexifica, tudo se complica, como uma bola de neve que rola e engorda, enquanto desce, sem saber porquê. A Escola de hoje é um impossível vulcão de neve!

A docência, aquela docência que me trouxe para os trilhos vitalícios da Escola, está completamente esfrangalhada. Já professor não sou!