Tal como prometi recentemente, aqui estou eu ― só e contemplativo, como convém ―, na soleira do érebo de injustiças do ensino. O Inferno de Dante tem um portal, um vestíbulo e nove círculos, dispostos em patamares descendentes. Se Dante fosse um autor contemporâneo, muito provavelmente diria "círculo -1", "círculo -2", "círculo -3"… Na escola actual, não sei muito bem quantos círculos existem, pois ainda me encontro no portal. Logo se verá! O que sei ― foi o Diabo em pessoa que mo assegurou ― é que estão todos ao mesmo nível, variando apenas o seu diâmetro. Mais ou menos como quando damos uma pedrada num charco.
A entrada é ampla, embora em evidente mau estado de conservação. Contudo, as vistosas e bem salientes almofadas da porta de duas folhas fazem-me crer que, outrora, este pórtico foi belo e convidativo. Encimando esta magnífica passagem, faustosos adornos florais crescem em colina, culminando com dois malmequeres que suportam uma placa marmórea rectangular com os seguintes dizeres:
Uns estudam, outros não.
Uns queimam as pestanas, outros não.
Uns têm responsabilidades, outros não.
Uns têm toda a pressão, outros não.
Uns são escravos, outros não.
Uns resistem, outros não.
Uns são escravos, outros não.
Uns resistem, outros não.
Todos têm o mesmo quinhão.
Uns jamais terão todo o sucesso, ainda que dêem novecentas e noventa e nove voltas de joelhos a cada um dos nove círculos deste báratro.
Outros têm todo o sucesso sem nenhum sacrifício.
MAL-VINDO AO INFERNO

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