É inegável: o medo apoderou-se dos professores. Ele está presente nas entranhas conscientes e inconscientes, e condiciona quase todas as suas atitudes. O medo é superior ao poder concedido aos directores e mesmo superior ao texto da Lei. O medo é a própria Lei.
Os professores, nas diversas funções e cargos que desempenham, já não questionam, já não querem saber as razões, os fundamentos, o porquê e o para quê; já não querem saber se isto ou aquilo está consignado num texto legal: aceitam, cumprem, obedecem, acumulam tarefas, responsabilidades… porque têm medo. Têm medo quando pensam, quando executam e quando avaliam a sua acção. Em todos esses momentos, a ideia de se justificarem está omnipresente e é omnipotente. Os professores têm medo das retaliações legais que este novo statu quo permite.
Sinceramente, acho que ainda não sinto esse medo. Mas tenho medo desse medo que leio nas atitudes dos professores deste país. Tenho medo do amanhã que ele anuncia. Gela-me, ensombra-me a alma, faz-me ter vontade de não querer! Enfim, destrói-me!
Nós, todos nós, ensinamos muito mais aquilo que somos do que aquilo que sabemos. Para mim, isto é tão cristalino como água de nascente. Assim sendo, o que pode o amanhã esperar de uma geração de professores vergados à obesidade do medo? Que espécie de educadores poderemos ser? Como poderemos ajudar a formar homens livres, se aprisionámos, se castrámos em nós a liberdade de pensar e de agir? Como poderemos preparar as nossas crianças e os nossos jovens para o exigente tempo que se afigura, se temos a vontade algemada, se temos a consciência oprimida, se… já não sabemos quem somos nem o que andamos a fazer como autómatos?
Mesmo neste silvado de desvalores, a estrela polar de qualquer professor, de qualquer educador, deve permanecer luzente no firmamento da sua postura, pois é nela que, consciente ou inconscientemente, o sextante dos seus alunos se vai fixar. É essa estrela que eles vão seguir para serem. E é essa a raiz do meu medo: que os nossos alunos não consigam ver em nós estrela nenhuma! Apenas um pedaço de noite calada e triste!

12 comentários:
Excelente análise!Põs o dedo na ferida. O medo e o fingimento têm sido os nossos piores inimigos.
Abraço
Obrigado, Maria! Acredite que preferia estar redondamente errado! Mas, infelizmente... Agora o medo vem de quase todos os lados. É como chuva tocada a vento.
Tens razão Luís. Instalou-se em quase todas as escolas uma "cultura do medo" nada salutar!
Luís
Tens muito jeito para a "brincadeira" e a sátira atinge com facilidade os inteligentes, mas...
Este é dos textos mais bonitos e acertados sobre PEDAGOGIA. Quem diz que:
"Nós, todos nós, ensinamos muito mais aquilo que somos do que aquilo que sabemos."
sabe bem do que fala e diz o que nenhum compêndio era capaz de sintetizar.
Parabéns pelo texto, mas mais pela lucidez e profundidade da análise.
Que sirva de guia a todos os professores e lhes abra os olhos, se não chegar à alma.
Abraço
Obrigado, Miguel! Vou escrevendo ao sabor do meu estado emocional. A emoção é que me dita o corredor mental e abre a porta que dá origem ao que escrevo. Ontem entrei num compartimento um pouco mais escuro. Abraço!
gostei muito, Luís. é isso mesmo o que se está a passar. e lamento acrescentar:-somos uns cobardes!
vou partilhar, com os devidos créditos
Caro Luís,
Palavras simples e sábias. Quase sempre irónicas. Nos belíssimos textos algo de comum, a expressão de uma realidade que nos é triste.
Obrigado pela partilha.
Excelente texto, Luís, que com a tua licença levo para o meu blogue.
Retrata muita da realidade deste país, triste, que herdamos dos politiqueiros que se julgavam estratosféricos. A situação é ainda mais grave porque não se verifica só na Educação, já de si especialmente grave, e é bem mais abrangente que ela, é uma coisa mais ou menos difusa com contornos de epidemia...
Muito bem escrito. É esta a realidade que nos tolhe e nos amordaça, mas também terá que ser essa a nossa batalha. É importante questionar, debater, opinar e combater. Assumir a responsabiliddae de lutar contra esta escola burocrática que nos entolhe de papel inútil com a qual nos justificamos com o trivial "isto é uma m..., mas rem que ser feito".mas tem que ser feito porquê?...se é inutil e ninguém quer saber, porque carga de água tem que ser feito ? Autonomia com responsabilidade para os professores. Deveria ser esta a nossa reenvidicação.
Estamos num tempo de falsos tempos, de contradições, o importante que é ensinar,passou para ultimo lugar, era bom termos escolas como antigamente, com respeito com estudo
bom dia a todos
helena
A verdade é que os professores sempre foram, agora menos, bem como os médicos os meninos bonitos dos governos, quanto a isso não há dúvidas. Começaram a sentir que essa benesse acabava, quando deixaram de ter 3 meses de férias em cada ano lectivo...
Era urgente o início da reciclagem e a assistência técnico-pedagógica...tão importante para o ensino cada vez mais exigente dos alunos. Porém...esses 3 meses que serviriam para essas actualizações, foram abortados pelo governo que não teve arte e engenho para dar continuidade e, em vez disso, encheu o programa com papéis, estatísticas e auto-avaliações ridículas aos professores...
Construiu algumas escolas novas sim, remodelou outras mas...claudicou no essencial.
Asim sendo...como gente educada os professores são aquilo que os governos fizeram deles...
Bom dia!
Gostei do seu artigo. Não posso deixar de dar a minha opinião. Efetivamente, esse medo que sorrateiramente se foi apoderando dos professores como uma praga lenta mas eficaz, domina a atividade nos dias de hoje. E o combate à doença não podia ser pior, uma submissão completa de direções e subordinados a diretrizes ministeriais outrora inimagináveis mas que nos dias de hoje se assumem como lanças da praga que nos domina. E assim temos um corpo docente ansioso por deixar de o ser em contra ponto com os seus verdadeiros ideais, ensinar e participar ativamente no crescimento dos alunos. Vivamos
Enviar um comentário