"Noite Estrelada" - Van Gogh
Mesmo quando ela se debruça sobre mim, loiramente sensual, e me conquista um sorriso de sol estampado de alegria de viver, eu digo-lhe francamente:
― Manhã, adoraria ver os teus olhos azuis em todos os meus acordares, mas não há noite em que não me despoje dessa tua luz, para reaprender diariamente a perder-te, e não ter medo de ser sem ti!
A seiva da minha liberdade, eu bebo-a em cada rodopio da esfera azul, numa estranha taça de dois fundos simétricos: empenho o meu tutano em tudo o que quero e acredito; beijo quotidianamente as mãos do mundo, este mundo, mas sem nada do que nele conquistei. E segredo-lhe:
― Plantaria no teu seio a minha liberdade, ó velado astro dos meus dias. No teu corpo árido seria capaz de reinventar a vida, e de nela pintar a minha estrela! No teu vazio eu aninharia um fascinante recomeço, como quem amanhece noutra encarnação. Não te temo! Talvez até te deseje, em segredo de mim mesmo!
A estranha força do meu caráter, aquela que me permite dizer o mundo tal como ele se timbra nos meus olhos ― sem medo de não ganhar, sem medo de ver esfumar-se a minha sala de troféus ―, brota abundantemente desta fonte em que me banho, ao deitar e ao acordar dos dias. E tu, caro leitor, tu deixaste apagar no céu as poucas estrelas cintilantes que nele, todos juntos, acendemos? Bebeste a resignação desse véu triste, como se as tuas retinas já não tivessem sede de luz? Talvez até já nem creias que Fénix possa reerguer-se do chão lunar onde jazem, exangues, os teus sonhos. E eu, sem ti, sem o teu pigmento essencial, não posso pôr amarelo na noite escura. De nada vale a minha força! É inútil o meu labor aqui! Apenas te dou da minha presença, plangente violino ecoando em sepultura!
Nos parapeitos rasgados neste breu, pálidas, tremeluzem ainda algumas candeias, mas dão apenas de comer à noite faminta, fazendo parecer ainda mais negro o infinito luto do seu xaile. Cansadas e descrentes, um pouco como tu, também elas já desistiram de querer atear a madrugada. Algumas fenecem, outras parecem mesmo abraçar a sua luz, espelhada nas vítreas paredes do seu corpo. Alados como morcegos, em ansioso e cobiçoso revolteio, esvoaçam livremente os impostores, inconfessos amantes da escuridão. E o negrume é feito de silêncio e de marmórea paz!
O que fizeste ao teu Principezinho, amigo leitor? Em que encruzilhada da tua razão o abandonaste? Como deixaste amortecer em ti a sua chama? Deixaste que todo o teu céu se fizesse adulto, e agora nada tens que cintile? Olha que leva com ele o dia, o teu Principezinho cadente! Um dia sem vontade de nascer!
Quando o pez da noite se fizer gelo no teu peito, e tu já nada tenhas a perder, talvez então queiras reacendê-lo com um beijo. Como um pirilampo de vida, também eu virei por ti! E se quiseres, comigo, pintar de véspera a negrura dessa noite, a teu lado lutarei!
Agora deixa-me dar-me a mim mesmo, que de mim, há muito, saudoso ando!
Stephane Wrembel - "Bistro Fada"

10 comentários:
Uma beleza de texto, Luís!
Estou a escrever sem saber se este comentário vai entrar... o blogger por estes dias tem estado um lugar estranho...
A ver vamos! Beijinhos!
Luís
De adeus em adeus, até ao regresso definitivo...
às vezes dá um cansaço, mas amanhã ha de vir mais vontade.
Lindo.
Obrigado, Anabela! São generosas as tuas palavras. O texto não está tão belo assim!
Boa noite, Miguel!
Tens razão, pois já assim sucedeu passado. Mas, na verdade, agora sinto-me completamente inútil aqui. Por outro lado, sou urgente no meu anonimato!
Faz hoje 29 anos (dia 2) que fui mãe pela 2ªvez.E chorei! De alegria? Não! As minhas lágrimas foram de puro desalento!
Obrigada Luís pela tua prosa.
Tua sempre admiradora
Abraço!
Boa noite, Maria!
Parabéns à tua filha (e a ti também, claro)!
Senti-me dividido ao ler o teu comentário! Saboreei o teu mimo, mas também senti o gosto amargo do nosso desalento.
Sabes, Maria, neste momento penso que a minha prosa será muito mais útil, e perene, se a orientar para o leito materno de Flávio Monte. Pouca gente perceberá que tenho andado a sacrificá-lo... afinal por muito pouco, ou quase nada!
Um grande abraço!
"...e não ter medo de ser sem ti."
Como isso, por vezes, faz falta!!!
E é um texto belo, sem qualquer dúvida.
Boa noite, Elisabete! Bem-vinda!
Obrigado pelas palavras generosas!
Já fui aos seus dois blogues. Partilho algumas das suas relíquias Ferreira de Castro é uma delas. Também me fascinam as casas de pedra. É algo quase inconsciente.
Fiquei maravilhada em ler tao belos versos paresçia que em um repente tomasse conta de mim e me envolvi totalmente com lindas palavras......................
Obrigado, Flávia, pelas palavras ternas. Adivinho-a longe de Portugal. Abraço comovido!
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