Sábado, 31 de Dezembro de 2011

Feliz Ano Novo

Deixo-vos com estas belíssimas imagens da minha amada terra natal. É um singelo cabaz de fim de ano, que eu próprio amanhei, com os votos de um 2012 de plenitude para todos os meus leitores. Amanhã, ao despontar de um novo ano, estarei aqui, de portas abertas, para vos receber.

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Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011

Ditaduras do Medo




Escrevi este texto há três anos atrás. Infelizmente, o seu referente está hoje muito mais percetível e inteligível. Por muito irónico que possa parecer, é o povo que está a matar a democracia em Portugal. E está a matá-la com a indiferença, com o abandono da cidadania interventiva, com o medo de agir. O povo permite que os programas e os atos eleitorais sejam uma farsa que transforma o seu voto numa imbecilidade. Vencido por fenómenos que não entende, rendeu-se a uma obediência cega, acrítica e fatalista. Sim, há uma corja que está no poder e outra que puxa os cordelinhos nacionais e internacionais, mas esses só continuam a manobrar porque o povo deixa.

Ditaduras do Medo

Muitas pessoas me têm dito que não acreditam na possibilidade do regresso a um regime ditatorial. De certa forma, compreendo e até concordo: uma ditadura “provinciana” como a de Salazar não seria possível! Seria demasiado simplória e descarada para os nossos dias. Não, que o nosso povo já não tem as taxas de analfabetismo dos anos quarenta, cinquenta e sessenta! Mas recordo que Salazar — tal como Hitler — foi eleito, o que fazia pressupor a possibilidade de o derrubar através do voto. Mas tal não aconteceu, pois não? A História repete-se, mas sempre com roupagens diferentes, com novas e múltiplas variedades. A nossa vida é um carrossel, a História é um carrossel, o planeta é um carrossel que também gira em torno do Sol, que por sua vez gira em torno da Via Láctea, que por sua vez gira… Vivemos num gigantesco carrossel de carrosséis.
Estou convencido de que uma nova ditadura — mais tarde ou mais cedo — virá: mais subtil, mais sofisticada, mais complexa, mais entranhada na alma das pessoas, mais difícil de “arrancar”, parecida, na allure, com a Democracia. Tal como um vício, apenas se tornará evidente quando a tivermos entranhada nos ossos e na carne!
Uma tal “ditadura”, no meu entender, construir-se-á sobre um medo intrínseco, latente, que os cidadãos gerarão e cultivarão bem no fundo do seu âmago: começará por uma quase instintiva sensação de medo; depois evoluirá para o medo de uma ou outra retaliação; mais tarde, ganhará a forma de medo de inconsciente, como um vício (um medo puro, sem causas aparentes nem razões plausíveis, um medo incorporado na alma). Tal estado de alma levará as pessoas à inibição, a autocastração, ao atrofiamento individual e social. Esse medo chegará impercetível, através das virtualidades do progresso e das novas tecnologias, as quais, como tudo, são passíveis de uso ambivalente.
Nos tempos que correm, eu tenho medo, eu sinto medo, como toda a gente! Caso contrário, não passaria de um idiota, de um imbecil! Contudo, combato-o diariamente como se combatem as ervas daninhas, antes que se apoderem do nosso jardim! Tenho medo, muito medo do que os meus olhos veem! Mas enfrento-o, combato-o, domino-o… Sou um tirano do meu medo!

Luís Costa
1ª publicação: 17 de setembro de 2008

Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

Crónica de Santana Castilho



Era uma vez a confiança


A solução para os gravíssimos problemas que nos afectam é um empreendimento colectivo. Mas todos os empreendimentos colectivos falham se a sociedade não sentir confiança. As pessoas aceitam os sacrifícios se as convencerem de que eles resolvem os problemas. Confiança e reciprocidade são palavras-chave. Infelizmente, o Governo ignora-as.
Os portugueses estão mergulhados em sofrimento: famílias envergonhadas, lançadas numa pobreza com que nunca sonharam; velhos sem dinheiro para a farmácia; jovens sem horizontes de futuro; crianças com fome; professores sem escola; desemprego galopante; empresas falidas; assaltos violentos todos os dias. Tudo contemplado por um Governo incontinente nas nomeações políticas, imoral na distribuição de benesses, insensível, perito em abater, incapaz de erigir, que não gera confiança.
As alterações curriculares do sistema de ensino, já aplaudidas por alguns, são uma pantomina. São a evidência da boçalidade técnica dos que as propõem. A discussão pública que se segue já morreu, por uma questão de confiança metodológica. [...]
In Público, 21/12/11 

Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

Vai-te Afundar o Fodistão




Desta vez, decidi brincar um pouco com a canção “Walking in a Winter Wonderland”, na versão de Dean Martin. É sobretudo um requintado exercício de fonética, como facilmente constatarão. O espírito natalício, definitivamente, apoderou-se de mim. Estou a ficar lamechas!


Vai-te afundar o Fodistão!

Toca o sino, já se atiça
Esta gente submissa,
A máscara cai-te,
Tu, ó Pedro, vai-te
Afundar assim o Fodistão!

Já se foi um bom pardal,
Mas ficou outro igual:
A mesma canção,
O mesmo refrão.
Vai-te afundar o Fodistão!

Da palha nós fizemos um espantalho,
Que se toma por um Parson Brown.
— Quereis trabalho?
— Sim, pá!
— Então tendes de ir pra China Town!

E o povo já conspira
Contra quem tanto lhe tira:
— Daqui não arredo,
E digo sem medo:
Vai-te afundar o Fodistão!

Da palha nós fizemos um espantalho
Que nos toma a todos por bocós.
Vamos despedir este pirralho,
Antes que ele nos deixe KO!

Vamos dá-lo à Cochinchina,
Ou ainda mais acima,
A um lugar que eu cá sei,
Sem Lei e sem Grei.
Vai-te afundar o Fodistão!

Luís Costa

Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

O inspetor está a chegar!


Para os milhões de portugueses que andam com saudades do Luís Costa — moi-même — aqui fica uma prendinha de Natal que promete, embora ainda não saiba ainda bem o quê.
Reescrevi a letra de “Santa Claus is Coming to Town”  encostado versão de Bing Crosby com as Andrew Sisters. Procurei manter-me também muito próximo das sonoridades da interpretação “original”, para que o meu estimado leitor possa clicar no play (aqui ao lado) e cantar… comigo. Vamos a isso? Bora lá então! Um… dois… três:

O inspetor está a chegar!

Tu põe-te a pau, tu lê e relê,
Arruma os papéis, eu digo porquê:
O inspetor está a chegar!

Ele tem uma lista, ele vai-te pedir
Tudo de tudo, tu não vais fugir.
O inspetor está a chegar!

Ele vê se estás dormindo,
Quando tu estás ocupado,
Se tu és um bom menino,
Um pauzinho bem-mandado.

Tu põe-te a pau, tu lê e relê,
Arruma os papéis, eu digo porquê:
O inspetor está a chegar!

Prepara bem as folhas Excel
E “powerpointes”, tudo a granel.
O inspetor está a chegar!

Fechados na sala, só ele e tu,
Tu és o pisco, ele o urubu.
O inspetor está a chegar!

E as crianças lá da escola
Vão viver um jubileu,
Vão fazer um avião
Com a menção que ele te deu.

Tu põe-te a pau, tu lê e relê,
Arruma os papéis, eu digo porquê:
O inspetor está a chegar!

Ele vê se estás dormindo,
Quando tu estás ocupado,
Se tu és um bom menino,
Um pauzinho bem-mandado.

Tu põe-te a pau, tu lê e relê,
Arruma os papéis, eu digo porquê:
O inspetor está a chegar!

Tu põe-te a pau, tu lê e relê,
Arruma os papéis, eu digo porquê:
O inspetor está a chegar!

Ele está a chegaaaaaaar!

Luís Costa

Domingo, 18 de Dezembro de 2011

Tecendo Natais


A década de oitenta percorria a passadeira do tempo. Foi ela que me trouxe estes natais que hoje recordo. Era ainda solteiro. 
Durante o dia, aos poucos, como pequenas revoadas de andorinhas, os meus irmãos iam chegando — de Montalegre, do Pinhão, do Porto, de Paris e, por vezes, de Melbourne. E a casa acendia-se, ganhava vida e calor como um ventre. Parecia ter alma! A cada chegada, a pirâmide das prendas, de braço dado com o pinheiro, ganhava altura e ateava a curiosidade dos mais novos. A família, do amanhecer ao colo da noite, ia-se desfragmentando, ficando inteira sob o mesmo teto, onde a retorta da união, borbulhando de afeto, decantava o sal da saudade, tornando-nos capazes voltar a desafiar o tempo. Os olhos da minha mãe tinham então outro brilho, e o seu rosto floria numa expressão de alegria quase pueril. Incansável, em constante vaivém pela casa, fazia-se omnipresente, dava-se a uma seara de três gerações.
Habitualmente, havia mais de vinte pratos sobre uma mesa ampla que enchia toda a sala de jantar. Durante a ceia, falávamos um pouco de tudo: contávamos histórias e anedotas, lembrávamos o passado, outros natais, os que já nos tinham deixado e os mais distantes, lá no outro lado do mundo, que ligavam sempre para também, assim, estarem connosco à mesa. O telefone saltitava de mão em mão, ouvindo os repetidos votos de um Santo Natal e feliz Ano Novo. E todos os diálogos, forçosamente curtos, terminavam com o mesmo cliché: “vou passar-te a Nor”; “vou passar-te a Carmo”; “vou passar-te a Fátima”… As crianças, ansiosas e excitadas, comiam rapidamente. E nem a sobremesa os retardava. Antes dos cafés chegarem à mesa, já elas estavam na sala de estar a ver televisão, com os olhos ora no ecrã ora no colorido dos presentes, deambulando, como ovelhinhas soltas em viçoso pasto, nos cumes da paciência.
Um dos filhos vestia-se de Pai Natal, e entregava as prendas, uma a uma. Era um ritual, acompanhado de aplausos, que demorava cerca de meia hora. Depois dos agradecimentos, enquanto os catraios mergulhavam nas suas novas fantasias, como se se afundassem, subitamente, num mundo paralelo, esfolheávamos páginas de nós, à volta da mesa e da braseira, pela noite dentro, até o sono ser de chumbo e o corpo não poder mais.
A manhã seguinte nascia sempre preguiçosa e a declinar as horas. Depois, acabava por precipitar o relógio e, a contragosto, lá servia as despedidas:
— Deus queira que de hoje a um ano!
— Cá estaremos, se Deus quiser!
— Então não há de querer?!
No forro daquelas pequenas frases feitas, saídas do peito como um disfarçado esconjuro, escondia-se o inconfessável receio de não nos voltarmos a juntar todos no Natal seguinte. Era como se o próprio tempo, nesse momento, nos viesse cobrar, em silêncio, as suas generosas concessões, e lembrar-nos de que tudo neste mundo tem um fim.
— Ide com cuidado, que as estradas estão cheias de gelo! — recomendava a minha mãe, com o coração nas mãos. — Telefonai ao chegar!
A casa, a cada despedida, ia esmorecendo a sua chama, ganhando os desmaiados tons da melancolia. A mesa permanecia cheia de tudo, mas geometricamente só, inerte como um palco sem atores. Os casados partiam para outros lares, que os esperavam para um “segundo Natal”. Eu e os meus dois irmãos mais novos, também solteiros, ficávamos com a minha mãe a enganar o vazio frio que restava e a desfiar saudade.
Só então ela se rendia ao quebranto. Depois do almoço, com o ramerrão da casa resolvido, deitava-se sobre a cama, e descansava placidamente. O seu corpo pequeno — franzino, encolhido sobre a colcha, mal coberto por uma delicada manta de lã — e sua expressão quase meninil, enquanto dormia, eram de uma rapariguinha que, em sonhos, desdobando o fio do tempo, estava ali entretida a tecer natais, passados e futuros.

Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

Ferrum Ferro Acuitur


Afinal, ainda não é hoje que venho aqui para falar das grelhas curriculares de Nuno Crato. É que me constou que os diretores andam por aí a entupir caixas de correio eletrónico. Parece que estão descontentes com a “sua avaliação”. Que mundo tão injusto é este em que vivemos!
Como é óbvio, não poderia estar mais solidário com estes nossos colegas, e irmãos, que tão galhardamente estiveram ao nosso lado, em todos os momentos. Nesta hora de tão profundo pesar, compadeço-me, sofro com eles como eles souberam sofrer por nós, incondicionalmente, ignorando possíveis represálias da tutela, pondo os interesses de toda a classe (e dos alunos, é claro) muito acima dos seus. 
Colegas amigos, estou c’os vossos umbigos! Aceitai, pois, esta modesta oferenda, em terceira edição, ligeirissimamente retocada (é pouco, mas é de boa vontade):
  

Na escola d’Ana Maria

Na escola d’Ana Maria
Não há paz nem alegria
Há vaidade e presunção
Há soberba e inquisição
E pura demagogia

Na escola d’Ana Maria
Morreu toda a empatia

Na escola d’Ana Maria
Abunda a burocracia
Há papéis e papelões
Relatórios e avaliações
E menções de fantasia

Na escola d’Ana Maria
Morreu a pedagogia

Na escola d’Ana Maria
Agiganta-se a autocracia
Há chuva de normativos
Há órgãos deliberativos
Há avisos e editais
Há atos eleitorais
Mas só manda o ditador

Na escola d’Ana Maria
Morreu a Democracia

Na escola d’Ana Maria
Vai ser noite até um dia

Luís Costa 
1.ª publicação – 09/08
2.ª publicação – 02/11

Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011

Noite Estrelada


"Noite Estrelada" - Van Gogh

Tudo parecia rescender a ansiedade e alegria. Os olhos das crianças cintilavam: era o primeiro Natal em casa, sem o habitual nomadismo pelas invernosas estradas transmontanas. Finalmente, tinham os três avós juntos, sob as mesmas telhas, na noite mais estrelada do ano.
Na sala, durante toda a tarde, os natalícios vapores musicais acompanharam o vaivém dos últimos preparativos. Ao canto, junto à janela, a beijar o teto, faustoso e coruscante, abrigando o eldorado das crianças, o pinheiro brasonava a ocasião. Duas mesas, uma a um canto e outra ao centro, completavam o farto cenário da ceia das ceias.
A minha mãe passou parte da tarde a dormitar no sofá, com o gato refastelado sobre a manta que lhe cobria as pernas. Aninhada no seu xaile, ela abria os olhos de vez em quando, e passava-lhe as mãos no amarelo do pelo. Depois do lanche, ficou na cozinha a acompanhar os preparativos, lamentado já não ter forças para ajudar. Mas os seus conselhos brotavam a cada momento, denotando que o saber não se perdera no insondável definhamento da memória. Mais tarde, já cansada de estar de pé e de algumas voltas dadas ao rés-do-chão, quis subir, para repousar um pouco sobre a cama antes de ceia. Fui acordá-la quando os ponteiros se preparavam para as oito.
Estava uma rainha, a Dona Ana, descendo a escada, apoiada no meu braço. O cabelo grisalho, penteado para trás, formando uma trança na nuca, deixava sobressair o discreto doirado dos seus brincos em forma de rosa; o casaco cinzento, de malha fina, parecia florir a gola alta da camisola branca, dando uma serena jovialidade ao seu rosto octogenário. Como sempre, o sorriso gerado por uma pequena piada banal ajudou-nos na descida.
— Está muito bonita a mesa! — exclamou, sentando-se entre os filhos: eu e a Laura, que viera de Paris na véspera. A meu lado, a minha mulher; a seu lado, os seus pais; os netos fechavam a aliança. — Vamos então comer na paz do Senhor!
A ceia tinha tudo o que é de tradição nessa noite, seja onde for, em qualquer parte do mundo, onde houver, à volta de uma mesa, um colar de almas lusitanas. Porém… faltava-lhe a alegria e o movimento de outrora. Estávamos felizes, é certo, mas não em plenitude. Faltava o bulício, a correria, os odores e o calor de uma casa cheia de gente entrando, saindo, falando, rindo… Faltava uma família numerosa, dispersa por outras terras, outros tetos, jantando em redor de outras tábuas. E nem o crepitar de alguns paus de carvalho, que ardiam languidamente na lareira, nem o cintilar constante das estrelinhas do pinho verde podiam compensar a luz e o calor desses tempos idos, perdidos nas saudosas brumas dos anos.
O telefone começou a tocar e não mais parou. Os filhos ausentes, alguns amigos mais chegados, todos quiseram a prenda de falar com a mãe, nessa noite única, em que todos, de algum modo, voltamos à nossa infância. O seu coração oscilava entre a alegria de ouvir os seus rebentos e as lágrimas discretas, de uma saudade mal escondida no canto do olho. Por breves instantes, o seu olhar parecia suspenso e ilegível. Apenas a testa franzida denunciava discretamente sua acortinada melancolia. Era um olhar sem referente, perdido no passado, como o do meu pai, outrora, já limitado nos movimentos, quando escutava as melodias românticas, ou as novelas, na penumbra da sala, sentado diante do seu Telefünken. Eram apenas fugazes momentos, centelhas de tempo, mas continham toda uma vida, como um pequeno pedaço de História cristalizado numa minúscula pérola de âmbar.
Logo que me despi de Pai Natal, depois do seu habitual “Deus queira que de hoje a um ano!”, fez-me um encolher de ombros e um erguer de sobrancelhas: queria deitar-se. Chegara aos limites da sua resistência. Como sempre, acompanhei-a ao quarto e ajudei-a a alongar-se na cama, sobre o seu braço direito, envolta no seu casaquinho de lã cor-de-rosa, como uma menina. O saco de água quente, junto aos pés, o aconchego dos cobertores, a habitual despedida e… uma inesquecível pétala de ternura:
— Deus te ajude, meu filho, que bem mereces!
Não sei se a minha mãe tinha consciência de que a sua estada em minha casa era, acima de tudo, uma dádiva imensa. Talvez não, por genuína humildade. Todavia… Depois de tudo o que me dera ao longo dos anos, ela abria-me então as portas da sua alma, como um tesouro, para com ela viajar até aos confins da natureza humana, ao princípio e ao fim das coisas, unindo as misteriosas pontas da vida. Era um raro privilégio, uma experiência metafísica inenarrável, a maior de todas as heranças. Se alguém devia agradecer…
O dia de Natal amanheceu frio, mas soalheiro. A bela manhã, trajando azul, parecia sorrir, incitar ao passeio e à viagem.
A minha mãe levantou-se cedo. Quando fui ao seu quarto, já ela estava sentada na cama, vestida, a pentear o cabelo. Sobre a mesinha de cabeceira, alguns dos seus haveres e um guardanapo de papel com sementes de roseira, azálea e aloendro — esporos de uma esperança mais forte e mais longeva do que a vida humana —, que ela recolhera no meu jardim, para reflorir o seu quintal, quando voltasse a casa. 
— Bom dia, Dona Aninhas!
— Bom dia nos dê Deus!
— Acordou cedo. Não dormiu bem?
— Dormi. E tu, filho?
— Também. Sabe para onde vai hoje?
— Vamos para Chaves!
— Ainda não. Daqui a pouco chega o Carlos, que vem de Montalegre para a levar. Vai almoçar com eles. O Tozé também vai lá estar. Durante a semana, ele leva-a a Chaves, para matar saudades do seu ninho.
— Depois volto!
— Claro, mãe, só vai passar as férias de Natal!
— Pois, tenho de acabar o curso! — gracejou, com o seu imortal sentido de humor.
Ajudei-a a fazer a trança e a vestir o casaco. Depois, descemos até à cozinha, onde já éramos esperados para o pequeno-almoço.
Faltavam poucos minutos para as dez quando partiu, emocionada, em direção à casa onde, quarenta e cinco anos antes, me dera ao mundo. Era o descer do pano do nosso último Natal.

Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

Não há desertos sem fim




 -------------------------------------------- Prova de Vida ----------------------------------------------


Já lá vão quase mil e quinhentos dias de trincheira. São quase mil e quinhentos dias a pensar e a viver os problemas da Escola, os problemas da minha classe profissional, a toda a hora, sem descanso nem vontade de descansar. E, confesso-vos, ainda estou longe de estar saturado. Rendido? Nem morto!
Porém, reconheço que esta permanente vigília fez de mim um inadaptado. Viver tão intensamente e tão perenemente as injustiças, as deturpações, as humilhações, as ofensas, as perfídias e os roubos perpetrados tem-me mantido num sofrimento constante, uma dor que alimenta a chama da indignação, do veemente repúdio, do nojo, da… raiva. Por isso sou, hoje, um inadaptado. Entre mim e esta Escola de papel teleguiado há um abismo de quase mil e quinhentos dias, que mais parecem mil e quinhentos anos. Ela já sabe que não me vai engolir, e eu também sei que jamais a engolirei. Sou um corpo estranho. Tenho encontro marcado com o tempo. 
No meu dia-a-dia, procuro arreigar-me, com todas as forças que tenho, ao que é estritamente pedagógico (preparar as aulas, ensinar e avaliar) evitando, contornando ou declinando, sempre que possível, a infernal papelada que tudo sujeita, tudo controla, tudo tolhe. Tento manter-me tenazmente abraçado à minha sanidade mental, até que a besta me cuspa. Talvez fosse mais feliz de outro modo (como técnico operacional docente), mas teria de voltar a nascer, e com outros genes.
Infelizmente, olho para o resto da carreira como para um deserto: cada dia mais diferente, mais distante, mais só, sem oásis no pensamento, seguindo pacientemente o meu caminho, ciente de que não há desertos sem fim. Mas, contrariamente a esta sombra de Escola, jamais serei sombra de mim. 

Luís Costa

Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011

Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011

A Lição



Andavam a baloiçar na minha cabeça desde o dia em que as vira pela primeira vez, à porta da mercearia do Ratado. Eram lindas! Oh, como eram lindas! A elegância, a perfeição das formas e o brilho próprio das coisas novas agarravam-me o olhar enfeitiçado, cobiçoso, rendido, condenado a vê-las mesmo quando não estavam diante de mim.
Do acordar ao adormecer, a toda a hora, a todo o instante, aquele cacho de gaiolas doiradas teimava em cirandar-me no desejo, como uma falmega capaz de afoguear um bosque. Queria uma, só uma! Pô-la-ia na janela do meu quarto, com um grilo dos reais lá dentro, a comer banquetes de serradela e a cantar para mim. Porém, não tinha nem um tostão que fosse, e também me faltava o descaramento necessário para sugerir tamanha extravagância à minha mãe, porque os tempos eram de magreira. Se o fizesse, a resposta seria só uma: que furasse uma caixa de sapatos com um lápis e que metesse o bicharoco lá dentro. E era um pau! Até estaria bem mais à vontade o pobre do animal! Fiquei-me pelo namoro platónico.
Todos os caminhos, fosse qual fosse o recado que tinha para despachar, haviam de passar pela porta da mercearia, como se ali existisse mais força de gravidade e aquele lugar fosse uma misteriosa encruzilhada do mundo. E tantas vezes fui cântaro daquela fonte, que um dia…
Um dia acabei por passar no centro da Terra com a minha matilha, um punhado de rapazotes, todos já com uma longa e experiente década de vida. Tínhamos ido defrontar, aos pontapés numa bola, os queques do Bairro Aliança. A manhã, loirinha de alegria, dava alma colorida à cidade e realçava as formas das coisas, que pareciam exibir-se irresistivelmente perante o nosso olhar pueril, convidando à fruição dos prazeres da vida. Era a manhã perfeita para ir aos grilos, com uma palhinha mansa e a mágica lengalenga de os fazer sair da toca, atolambados, à procura de… uma gaiolinha, como aquelas que o sol acendia no esmalte verde da porta do Ratado.
O Litos, resoluto, sem dar cavaco a ninguém, deu o mote. E saiu-se bem. Depois, foi o Mareto. Seguiu-se-lhe o Chichas, o Palinhas, o Gila… E eu, é claro! Em discreta procissão, todos nos fomos benzer àquele lugar sagrado, e saímos de lá a dar corda às botas, de candeia luzente na mão, como pequenos Prometeus com o fogo divino.
Uma vez que já tinha um décimo de século e muita sabedoria acumulada, entrei em casa triunfante, pronto para encarar o inevitável interrogatório. Engendrara a resposta certa para uma certa pergunta que a minha mãe, certamente, me faria: tinha feito um recado ao senhor Ratado, e ele, como paga, tinha-me dado aquela gaiolita.
— E que recado foi esse, a ponto de merecer tamanha recompensa?
— Foi… levar umas… ajudá-lo a pôr na camioneta umas grades de laranjada vazias.
— Ai sim?! Então anda daí, que vamos agradecer ao senhor Manuel o presente que te deu.
— Não é preciso, eu já…
— Pois é, mas eu faço questão de ir lá contigo agradecer-lhe — atalhou, a desapertar o avental.
Num relâmpago, a minha mão esquerda, trémula, já estava engaiolada na firmeza dos dedos da minha mãe, e eu desandava a seu lado, a toque de caixa, com o despojo do crime a querer soltar-se da outra.
Caiu uma nevada de silêncio, mas o caminho, aquele traiçoeiro, fez-se-me curto. A mercearia, vingativa como uma bruxa, vinha a correr ao meu encontro. O centro do mundo parecia-me então um remoinho com gulosos apetites de me engolir. Ainda tentei furtar-me à vergonha, confessando o meu ato e mostrando-me genuinamente arrependido, mas de nada valeu. Os sapatos da minha mãe continuaram a mastigar o caminho seco, enquanto eu bebia o sal das minhas abastosas lágrimas e pedia a Jesus Nosso Senhor para que, ao menos, a loja estivesse sem gente.
Não fui atendido! A mercearia estava cheia de mulheres. Diante da porta, fiz-me pesado, mas a mão da minha mãe alargou-se-me nas costas e fez-me entrar, sob o olhar aquilino daquele mulherio todo, cujo sexto sentido pariu um gordo silêncio. De repente, toda a mercearia parecia ofuscada de curiosidade.
 — Senhor Manuel, o meu filho quer falar consigo.
A custo, a muito custo, entre soluços e embargos de voz, lá arranjei forças para dizer o que tinha de ser dito.
Ficou-me para a vida.

Domingo, 4 de Dezembro de 2011

O Negrilho


Hoje ainda não fui capaz de escrever. Tenho a alma moída e a mente emaranhada. Mas está para breve, eu sei, a hora de ser fonte. Pacienta um pouco comigo, estimado leitor, pois pode ser que valha a pena ver um rio onde ele nasce.

Hoje, ofereço-te um prosema do meu último livro — “Alto-Relevo: Caminhares da Alma” —, um pão de centeio farto com o mais genuíno e o mais humano dos miolos. Deixa que o sabor telúrico deste naco te emprenhe todos os sentidos.


O Negrilho

A aldeia repousava sobre um seio da montanha, contornando a redondez das suas formas femininas. Aos pés do granito acinzentado das casas pardas, como pedaços de chão erigido, a tez verde e viçosa de alguns lumedeiros preenchia de viva frescura aquele bucólico lugar. No cimo do outeiro, onde a terra barrosã beijava o céu, o pináculo da capela erguia-se como um farol. Contudo, ao lado, um ente ousara crescer bem acima da cantaria da torre sineira: o negrilho secular.

Acalcanhei a terra das nervuras íngremes e emparedadas que atravessavam o pequeno burgo, dei o rosto nu e a paz dos meus bons-dias aos olhares que, das lajes das soleiras, das varandas ressequidas, da umbrosa solidão das pálpebras tristes das casas, me varriam, e trepei até ao sagrado mamilo daquele peito, em cujo âmago pareciam hibernar os teares do tempo.

Ao lado da longeva capela ― rosto gótico austero, sereno, meditabundo e escurecido pelo bafejo frio da serrania ―, agigantava-se o assombroso corpo do negrilho, cujo tronco, áspero e rugoso, só podia ser abraçado por três homens de bom porte. Os seus ramos, desnudados pela melancolia outonal, denotando vigor, erguiam-se para as alturas como uma raiz aérea à procura de alimento. Aos seus pés, as folhas serradas, formando uma extensa manta de belíssimos e indefiníveis tons crepusculares, acalentavam o longo sono daquele ancião, que vira nascer todos os aldeões vivos e várias gerações passadas, tantas que o ventre daquela terra já não podia rememorar.

Havia já muito tempo que as suas sâmaras aladas se entregaram ao vento, revolutearam no seu dorso, sobrevoaram o alto-relevo das cercanias e debandaram para longe, acabando por poisar algures, quando aquele nómada se apeou para retemperar os seus insaciáveis ímpetos. Já contara muitos saracoteios da lua, desde o tempo em que as suas sedosas sâmaras, em dias de pastoreio do Sol, sem sopro que se sentisse, se soltavam dos seus dígitos e caíam logo ali, aninhando-se no confortável aconchego do colo paterno. Já mal recordava os últimos olhos ansiosos e redondinhos que treparam aos seus folhosos braços, catando ninhos, caçando passarinhos, anafando ilusões. Longe iam esses tempos de renovo em que o Homem ali também fecundava a Primavera. O demorado Outono trouxera o silêncio e a solidão no seu somítico alforge, entranhara-se naqueles peitos serranos como uma calada leucemia que lhes empalidecera lentamente, impiedosamente, a seiva da vida.

Aproximei-me do solitário gigante para sentir a sua presença, a aspereza da sua pele encarquilhada, ver de perto as suas rugas, ouvir o cicio do seu sonhar. Algumas cicatrizes, que as invernias tornaram indecifráveis, deixavam adivinhar primaveras floridas, cheias de pólen e de perfume, beijos fervorosos e furtivos, muitas promessas de amor, muitos sonhos tecidos. Encostadas ao seu tronco, duas pedras sós, abertas para o céu, eram um livro aberto, farto de páginas grávidas de poesia, de poemas vividos que só os poetas sabem ler: inquietas ondulações da alma, segredos moídos, lamentos bebidos, cavernosos desgostos, muitas horas murmuradas, muitas saudades gotejadas no colo discreto daquele mudo eremita, que era, de facto, avô e confessor dos filhos daquele serrano gineceu.

O meu olhar salgado desviou-se instintivamente para a muda sonolência do casario — juntinho como um rebanho —, em cujos telhados algumas velhas chaminés enlutadas, desfiando finos fios de escura lã, que uma mão divina parecia dobar, afinal, também se arvoravam para o céu, exauridas de cor, chorando sâmaras!

Flávio Monte, "Alto-Relevo: Caminhares da Alma"

Decisão Tomada

Planeta DaNação (hoje)

A minha decisão está tomada. Vou entregar a edição do blogue a Flávio Monte,  meu pseudónimo literário. Ele vai remodelar a montra e encarregar-se da edição. No que me diz respeito, admito a possibilidade de aqui vir, muito episodicamente, dizer qualquer coisa sobre a minha profissão.

Mais logo, no aconchego da noite, o novo senhorio já estará em casa.

Sábado, 3 de Dezembro de 2011

Postal

A minha primeira atalaia

Após alguns dias de afastamento, devido ao falecimento de uma irmã, eis-me de regresso, embora sem vontade de escrever, sem sentido para a minha escrita nem razão para a minha continuidade neste espaço.
Para ser sincero, caros colegas, não consigo encontrar uma única razão válida (realmente válida) para me manter nesta atalaia. É por isso que vos escrevo este pequeno postal. Gostaria que me désseis um único motivo para me manter aqui, um sentido para esta longa vigília, uma vez que eu tenho outras pelejas que me aguardam, outras demandas interrompidas. O que faço aqui, agora? Por que luto? Por quem luto?
Sempre que anunciei a minha retirada — o que já aconteceu diversas vezes —, sempre me acusaram de baixar os braços, sempre me colaram no rosto o carimbo da desistência, sempre me fizeram sentir miserável. Mas eu algum dia desisti? Quem desistiu afinal? Ainda assim, a pergunta mantém-se: desistir de quê? De quê? Fico aqui, de bandeira na mão, a fazer o quê? De mascote? De lápide? Digam-me, porque eu não consigo enxergar!
Eu não vim para informar, nem para me afirmar, nem para me promover, nem para me aproveitar… Eu vim para lutar e para vos instigar à luta: à resistência, à manifestação, à greve… à desobediência, quando tal se impôs. E agora? Dizei-me o que esperais de mim agora. Dizei-me.
AVISO: não venho à procura de mimos nem de palmadinhas nas costas. Quero uma razão que me convença, pois não sirvo para psicólogo, nem para padre, nem para entertainer... E muito menos para bobo da corte!