Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

Crónica de Santana Castilho


A confissão de Pedro Passos Coelho

Passos Coelho perguntou, com legitimidade, referindo-se a José Sócrates: “ Como é possível manter um Governo em que o primeiro-ministro mente?” Teimo na redundância de retomar factos sobejamente conhecidos, que justificam devolver a pergunta a quem a formulou e é, agora, primeiro-ministro. Porque a memória dos homens é curta e a síntese é necessária para compreender o que virá depois.

Passos Coelho enganou os portugueses quando disse que não subiria os impostos, que não reduziria as deduções fiscais em sede de IRS, que achava criminosa a política de privatizações só para arranjar dinheiro, que não contariam com ele para atacar a classe média em nome de problemas externos, que era uma “grande lata”, por parte do PS, acusá-lo de querer liberalizar os despedimentos, que não reduziria a comparticipação do Estado nos medicamentos, que não subiria o IVA e que falar de cortar o subsídio de Natal era um disparate. Passos Coelho enganou os portugueses quando, imagine-se, acusou o PS de atacar os alicerces do Estado social, censurou a transferência do fundo de pensões da PT para o Estado, acusou o Governo anterior de iniquidade porque penalizava os funcionários públicos e os tratava “à bruta”, responsabilizou as políticas socialistas pelo aumento do desemprego e das falências, recusou pôr os reformados a pagar o défice público ou garantiu que o país não necessitava de mais austeridade. Tudo retirado de declarações públicas de Passos Coelho, sustentadas documentalmente. Tudo exactamente ao contrário do que executou, logo que conquistou o poder.

Quem defende Passos Coelho argumenta, de modo estafado, que os pressupostos mudaram e que ele foi surpreendido pelo que encontrou quando tomou posse. A justificação é inaceitável. Porque só é sério prometer-se quando se está seguro de poder cumprir e porque existem declarações públicas de Passos Coelho afirmando que conhecia bem a situação do país. Todavia, esta questão foi definitivamente ultrapassada pelos acontecimentos recentes. Com efeito, o percurso começa agora a ser esclarecido. O qualificativo “piegas”, com que Passos Coelho injuriou o povo que lidera, não é fruto de um discurso infeliz. É, antes, uma peça de um puzzle de conduta política, cuja chave está numa frase inteira. Passos Coelho pronunciou-a quando, referindo-se ao programa da troika, afirmou: “… não fazemos a concretização daquele programa obrigados, como quem carrega uma cruz às costas. Nós cumprimos aquele programa porque acreditamos que, no essencial, o que ele prescreve é necessário fazer em Portugal …” Com esta frase, Passos Coelho tornou claro um radicalismo ideológico que amedronta. Com esta frase, Passos Coelho inviabilizou o argumento da mudança de pressupostos e confessou, implicitamente, a sua manha pré-eleitoral. O seu “custe o que custar” é, tão-só, uma variável discursiva da máxima segundo a qual os fins justificam os meios. O fim de Passos, confessado agora, sempre foi o que acha ser “… necessário fazer em Portugal …” Não como inevitabilidade imposta pelos credores, a contragosto de um primeiro-ministro que sofresse com o sofrimento do seu povo. Mas como convicção radical de uma ideologia que, para se impor no seu fim, aceitou o meio de mentir com despudor. Ficámos agora a saber que Passos Coelho mentiu conscientemente. Ele o disse.

in Público, 15/02/12

4 comentários:

bibónorte disse...

Santana Castilho é um homem sem medo, verdadeiro na sua escrita,politicamente incorrecto.Os profs têm em Santana Castilho um apoio difícil de encontrar em outros setores da sociedade mas, parece-me, que os profs menosprezam esta preciosa colaboração. Estarei errada?

Minnie disse...

Não, não está errada. Infelizmente, até lhe digo mais. A maior parte dos professores nem sabe quem é o Professor Santana Castilho. Sabemos nós que andamos por aqui mas aqueles para quem a educação se resume à escolinha onde estão há 25 anos e ao horário arrumado com dia livre sempre no mesmo dia, esses não sabem quem ele é. Nunca leram uma crónica escrita por si. Esses não querem lutas, pelo contrário, querem tudo na mesma desde que isso implique o seu bem-estar. São os que não alcançam mais longe.Há muitos, muitos...por isso, o Prof S.C. não tem entre os Professores a influência que merecia ter. É o único que nos compreende!!Tenho por ele uma admiração imensa.

Luís Costa disse...

Tens razão, Maria, é pena que haja muita gente adormecida e outra tanta absolutamente rendida!

Luís Costa disse...

Também tenho de concordar consigo, Minnie, por muito que me custe! Neste momento, os que apelam à resignação, à interiorização da "nova ordem" têm muito melhor acolhimento.