A confissão de Pedro Passos Coelho
Passos Coelho perguntou, com
legitimidade, referindo-se a José Sócrates: “ Como é possível manter um Governo
em que o primeiro-ministro mente?” Teimo na redundância de retomar factos
sobejamente conhecidos, que justificam devolver a pergunta a quem a formulou e
é, agora, primeiro-ministro. Porque a memória dos homens é curta e a síntese é
necessária para compreender o que virá depois.
Passos Coelho enganou os
portugueses quando disse que não subiria os impostos, que não reduziria as
deduções fiscais em sede de IRS, que achava criminosa a política de
privatizações só para arranjar dinheiro, que não contariam com ele para atacar
a classe média em nome de problemas externos, que era uma “grande lata”, por
parte do PS, acusá-lo de querer liberalizar os despedimentos, que não reduziria
a comparticipação do Estado nos medicamentos, que não subiria o IVA e que falar
de cortar o subsídio de Natal era um disparate. Passos Coelho enganou os
portugueses quando, imagine-se, acusou o PS de atacar os alicerces do Estado
social, censurou a transferência do fundo de pensões da PT para o Estado,
acusou o Governo anterior de iniquidade porque penalizava os funcionários
públicos e os tratava “à bruta”, responsabilizou as políticas socialistas pelo
aumento do desemprego e das falências, recusou pôr os reformados a pagar o
défice público ou garantiu que o país não necessitava de mais austeridade. Tudo
retirado de declarações públicas de Passos Coelho, sustentadas documentalmente.
Tudo exactamente ao contrário do que executou, logo que conquistou o poder.
Quem defende Passos Coelho
argumenta, de modo estafado, que os pressupostos mudaram e que ele foi
surpreendido pelo que encontrou quando tomou posse. A justificação é
inaceitável. Porque só é sério prometer-se quando se está seguro de poder
cumprir e porque existem declarações públicas de Passos Coelho afirmando que
conhecia bem a situação do país. Todavia, esta questão foi definitivamente
ultrapassada pelos acontecimentos recentes. Com efeito, o percurso começa agora
a ser esclarecido. O qualificativo “piegas”, com que Passos Coelho injuriou o
povo que lidera, não é fruto de um discurso infeliz. É, antes, uma peça de um
puzzle de conduta política, cuja chave está numa frase inteira. Passos Coelho
pronunciou-a quando, referindo-se ao programa da troika, afirmou: “… não
fazemos a concretização daquele programa obrigados, como quem carrega uma cruz
às costas. Nós cumprimos aquele programa porque acreditamos que, no essencial,
o que ele prescreve é necessário fazer em Portugal …” Com esta frase, Passos
Coelho tornou claro um radicalismo ideológico que amedronta. Com esta frase,
Passos Coelho inviabilizou o argumento da mudança de pressupostos e confessou,
implicitamente, a sua manha pré-eleitoral. O seu “custe o que custar” é,
tão-só, uma variável discursiva da máxima segundo a qual os fins justificam os
meios. O fim de Passos, confessado agora, sempre foi o que acha ser “…
necessário fazer em Portugal …” Não como inevitabilidade imposta pelos
credores, a contragosto de um primeiro-ministro que sofresse com o sofrimento
do seu povo. Mas como convicção radical de uma ideologia que, para se impor no
seu fim, aceitou o meio de mentir com despudor. Ficámos agora a saber que
Passos Coelho mentiu conscientemente. Ele o disse.
in Público, 15/02/12

4 comentários:
Santana Castilho é um homem sem medo, verdadeiro na sua escrita,politicamente incorrecto.Os profs têm em Santana Castilho um apoio difícil de encontrar em outros setores da sociedade mas, parece-me, que os profs menosprezam esta preciosa colaboração. Estarei errada?
Não, não está errada. Infelizmente, até lhe digo mais. A maior parte dos professores nem sabe quem é o Professor Santana Castilho. Sabemos nós que andamos por aqui mas aqueles para quem a educação se resume à escolinha onde estão há 25 anos e ao horário arrumado com dia livre sempre no mesmo dia, esses não sabem quem ele é. Nunca leram uma crónica escrita por si. Esses não querem lutas, pelo contrário, querem tudo na mesma desde que isso implique o seu bem-estar. São os que não alcançam mais longe.Há muitos, muitos...por isso, o Prof S.C. não tem entre os Professores a influência que merecia ter. É o único que nos compreende!!Tenho por ele uma admiração imensa.
Tens razão, Maria, é pena que haja muita gente adormecida e outra tanta absolutamente rendida!
Também tenho de concordar consigo, Minnie, por muito que me custe! Neste momento, os que apelam à resignação, à interiorização da "nova ordem" têm muito melhor acolhimento.
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