(Aos meus colegas)
Na mata de Roquelanes — dizem — houve em
tempos um tesouro. Por ele, três irmãos se se desuniram, se atraiçoaram e se
mataram. E ele lá ficou, quase intacto, velando o tempo. Reza a história que
ele ainda lá está. Porém…
Passaram muitos anos pelas árvores da mata
de Roquelanes. Hoje, as suas feições ostentam as marcas indeléveis do tempo que
passou. Onde outrora apenas havia árvores, esbracejando, folheando e avolumando
a esférica verdura no azul oxigenado do céu, há agora novos entes, ali deixados
pelo acaso, a assenhorar-se da paisagem. São as heras.
As heras são cobras vegetais. Elas
rastejam, elas trepam, elas insinuam-se e espalham-se por todo o lado. No
início, a sua monótona folhagem parece vestir de ricas peles os esguios troncos
das árvores. E o quadro deslumbra de romantismo o olhar de quem passa, de quem
contempla, de quem ali se apeia do tempo para se retemperar no colo da
natureza. Foi o que sucedeu na mata de Roquelanes. Porém…
Tal como as cobras, as heras da mata de
Roquelanes cresceram, afilharam e espalharam-se silenciosamente, em movimento quase
inerte pelos interstícios do tempo. Tal como as cobras, elas foram-se
enroscando aos troncos; depois, aos ramos mais grossos; seguiram-se as pernadas
mais finas; finalmente, as vergônteas cimeiras. Tal como as cobras, que trazem
no corpo invertebrado a mudez da morte, as heras foram apertando, foram
estrangulando, asfixiando os últimos sopros de vida de muitos membros do
vetusto arvoredo.
Hoje, Roquelanes parece um bosque de arbóreos
esqueletos em lenta digestão. Entre o corpo réptil das heras predadoras e a
casca seca e carcomida das árvores sufocadas, prolifera uma múltipla fauna minúscula
e abjeta de seres cujo destino parece confinar-se a uma existência escura,
fechada e larvar. Nesse submundo avesso, há um odor pútrido que denuncia
degeneração. Porém…
Porém, ainda há árvores intactas! Talvez
elas sejam as guardiãs do tesouro daquela mata. Mondando as heras, salvamos o
tesouro de Roquelanes.
Luís Costa
Neste texto, faz-se alusão à mata de
Roquelanes do conto “O Tesouro”, de Eça de Queirós.

9 comentários:
Boa noite. Luís!
Magnífico texto!
(Parece-me que vamos ter de usar tesouras de poda bastante sofisticadas para salvar o tesouro...!)
Obrigado, Clara!
Não é preciso serem sofisticadas, basta estarem bem amoladas. O resto faz-se com força de vontade.
Sim, tens razão... E com muita determinação!
Não vai ser fácil tosquiar as infestantes... mas não é impossível. Gostei muito deste texto, Luís!
As árvores intactas são as que passeiam por este e outros blogues similares, que são o último reduto da Resistência. Infelizmente, no universo total, diria que são muito poucas... estou descrente!!
Obrigado, Anabela!
As heras não se arrancam todas de um só gesto. Uma de cada vez...
Excelente!
Se a poda não der resultado passa-se para o inseticida.Já estou por tudo!
Tens razão, Felicidade! São poucas as árvores intactas, mas é preciso que, em cada mata, sejam criadas condições para que elas se desenvolvam e se multipliquem.
Obrigado, Maria! Vê-se logo que és nortenha, rapariga! Tens fibra!
Grande abraço!
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