Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

A Mata de Roquelanes



(Aos meus colegas)
Na mata de Roquelanes — dizem — houve em tempos um tesouro. Por ele, três irmãos se se desuniram, se atraiçoaram e se mataram. E ele lá ficou, quase intacto, velando o tempo. Reza a história que ele ainda lá está. Porém…
Passaram muitos anos pelas árvores da mata de Roquelanes. Hoje, as suas feições ostentam as marcas indeléveis do tempo que passou. Onde outrora apenas havia árvores, esbracejando, folheando e avolumando a esférica verdura no azul oxigenado do céu, há agora novos entes, ali deixados pelo acaso, a assenhorar-se da paisagem. São as heras.
As heras são cobras vegetais. Elas rastejam, elas trepam, elas insinuam-se e espalham-se por todo o lado. No início, a sua monótona folhagem parece vestir de ricas peles os esguios troncos das árvores. E o quadro deslumbra de romantismo o olhar de quem passa, de quem contempla, de quem ali se apeia do tempo para se retemperar no colo da natureza. Foi o que sucedeu na mata de Roquelanes. Porém…
Tal como as cobras, as heras da mata de Roquelanes cresceram, afilharam e espalharam-se silenciosamente, em movimento quase inerte pelos interstícios do tempo. Tal como as cobras, elas foram-se enroscando aos troncos; depois, aos ramos mais grossos; seguiram-se as pernadas mais finas; finalmente, as vergônteas cimeiras. Tal como as cobras, que trazem no corpo invertebrado a mudez da morte, as heras foram apertando, foram estrangulando, asfixiando os últimos sopros de vida de muitos membros do vetusto arvoredo.
Hoje, Roquelanes parece um bosque de arbóreos esqueletos em lenta digestão. Entre o corpo réptil das heras predadoras e a casca seca e carcomida das árvores sufocadas, prolifera uma múltipla fauna minúscula e abjeta de seres cujo destino parece confinar-se a uma existência escura, fechada e larvar. Nesse submundo avesso, há um odor pútrido que denuncia degeneração. Porém…
Porém, ainda há árvores intactas! Talvez elas sejam as guardiãs do tesouro daquela mata. Mondando as heras, salvamos o tesouro de Roquelanes.

Luís Costa

Neste texto, faz-se alusão à mata de Roquelanes do conto “O Tesouro”, de Eça de Queirós. 

9 comentários:

Clara Amorim disse...

Boa noite. Luís!

Magnífico texto!

(Parece-me que vamos ter de usar tesouras de poda bastante sofisticadas para salvar o tesouro...!)

Luís Costa disse...

Obrigado, Clara!

Não é preciso serem sofisticadas, basta estarem bem amoladas. O resto faz-se com força de vontade.

Clara Amorim disse...

Sim, tens razão... E com muita determinação!

Anabela Magalhães disse...

Não vai ser fácil tosquiar as infestantes... mas não é impossível. Gostei muito deste texto, Luís!

Felicidade disse...

As árvores intactas são as que passeiam por este e outros blogues similares, que são o último reduto da Resistência. Infelizmente, no universo total, diria que são muito poucas... estou descrente!!

Luís Costa disse...

Obrigado, Anabela!

As heras não se arrancam todas de um só gesto. Uma de cada vez...

bibónorte disse...

Excelente!
Se a poda não der resultado passa-se para o inseticida.Já estou por tudo!

Luís Costa disse...

Tens razão, Felicidade! São poucas as árvores intactas, mas é preciso que, em cada mata, sejam criadas condições para que elas se desenvolvam e se multipliquem.

Luís Costa disse...

Obrigado, Maria! Vê-se logo que és nortenha, rapariga! Tens fibra!

Grande abraço!