MOTE
As palavras… Tanto já foi dito
sobre elas! Tantos poetas as disseram e desdisseram! Ó palavras, que estranha
sina a vossa!
GLOSA
Há dias, na minha escola, tal
como acontece em todo o país, foram dados a conhecer os resultados de um
inquérito oficial à comunidade escolar. Vinham separados, de acordo com
as seguintes amostras (cito):
“- alunos do 1.º ciclo;
- alunos dos 2.º e 3.º ciclos;
- pais e encarregados de
educação;
- trabalhadores”.
Confesso que a palavra
“trabalhadores” me deu volta ao estômago. Trabalhadores! Uns são “alunos”,
outros são “pais e encarregados de educação” e os restantes são uma espécie de
massa indistinta, uma amálgama desclassificada, multifuncional, metida no mesmo
saco. Trabalhadores! Ai, palavras!
Não tenho nada contra o facto de
ser considerado trabalhador — eu próprio
me considero muito trabalhador —, mas quando faço parte de uma organização, de
uma instituição cujos membros têm papéis e funções específicas, eu exijo que
seja respeitada a minha identidade. Então os pais e encarregados de educação
não são trabalhadores? Ai, palavras!
As nevadas, mesmo as grandes, não
caem subitamente: primeiro, surgem algumas gotículas de chuva, ínfimas e leves,
que parecem cirandar no céu; depois, vem a água-neve; finalmente, quase sem
transição percetível, aparecem os farrapos, grandes e abundantes. E a terra,
num instante, fica coberta, inerte, rendida. Certas palavras, tal como a
água-neve, também trazem água no bico, são prenúncio de tempestade. Ai, palavras!
Quando vi esta palavra sobre os
esquadrões estatísticos dos resultados do inquérito, por impulso, saí da sala para ver a
sinalética que estava sobre a porta. Felizmente, ainda não fora alterada para
“Sala de Trabalhadores”! Tolices de poeta! Não liguem!

6 comentários:
As palavras por vezes parecem loucas... mas não é culpa delas, é mesmo de quem as emprega...
Anabela, como sabes não foi minha intenção culpar as palavras (são o meu mundo, enquanto escritor). Todavia, neste caso (como noutros) elas são mensageiras do rei. E trazem más novas!
É a proletarização em marcha, para que murchem as bazófias...
Nem mais, Miguel! O pior é que vi isto ser aceite com toda a naturalidade, com sorrisos... Afinal, só mesmo um idiota como eu (armado em escritor) é que é se preocupa com estas minudências!
Há uns anos atrás, um colega Diretor de Turma de Educação Tecnológica, tratava o Conselho de Turma por "pessoal" e lá eu costumava dizer: " queres dizer, pessoal docente!". Aqui é igual: trabalhadores docentes!! Alguém quis marcar uma posição nesse Agrupamento e dizer "Atenção que nós estamos um degrau acima! Vocês são operários!!"
Por aqui não é muito diferente só que é feito à porta fechada e com subtileza.Ultimamente ando muito amarga, foge-me a boca para a verdade a torto e a direito.
Estou muito longe?
Felicidade, não se trata de "trabalhadores docentes", mas apenas de "trabalhadores", grupo amplo, genérico, que pressupõe aquilo que toda a gente sabe!
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