Felizmente, a “indisciplicultura” não é
apanágio de todas as escolas. Indisciplina, há-a por todo o lado, tal como há
ervas daninhas em todas as hortas. Todavia, o que numas escolas é exceção,
adventício, noutras é a regra, a cultura dominante. E não é apenas a falta de
rigor normativo que gera a indisciplina. Esta resulta também de uma complexa
camuflagem, que visa deixar a escola muito bonita para a fotografia dos
inspetores. Creio que, visto de cima, o Photoshop é percetível, mas… tudo bem,
se acaba bem!
Em muitas escolas, há um generalizado
pacto tácito de abafamento da indisciplina, a bem da sacrossanta avaliação
externa. Não interessa nada que a instituição faça má figura nas passerelles inspetivas. Pouco importa se, no dia-a-dia, os alunos chamam tudo e mais alguma coisa a professores, funcionários
e colegas; pouco importa se há mais barulho do que num mercado; pouco importa se há mais lixo do que numa feira;
pouco importa se as aulas são, acima de
tudo, uma constante “luta” pela ordem, pelo respeito, pelas condições mínimas
de lecionação;
pouco importa se, para poder ensinar, o professor é obrigado a
usar sistematicamente a medida cautelar, e sistematicamente com aqueles que
nada fazem nem querem deixar fazer;
pouco importa se estas situações se
arrastam sem que haja uma alma que sancione esses alunos; não interessa. O que
realmente importa é que nada disto se transforme em papéis de música, para não
dar nos ouvidos. Tudo se resolve com conselhos, com avisos, com algumas bananas
verbais, com palavrinhas mansas, com frases dúbias, que deixam os alunos a
pensar que, afinal, eles até têm razão: o professor é que é demasiado rígido,
ou demasiado exigente, ou demasiado “porreiraço”, ou muito chato, ou
incompetente, ou não sabe motivar, ou diz coisas que não deve… No final, tudo
passa e quase todos passam. Tudo tem de “melhorar”, ainda que não melhore. Para
isso, existe o papel, que é o início e o fim de tudo.
Em muitas escolas, à volta de direções
bananeiras, cresceu uma fauna amacacada que gosta dos seus frutos. Na maior
parte dos casos, estes espécimes foram escolhidos a dedo já com esse fim. Fazem
todo o tipo de piruetas e de macaquices, sobretudo se for contra os colegas, a
parte com cotação bolsista mais fraca, neste momento. É a lei da sobrevivência,
é a lei da selva, é a selvajaria mais absurda.
O lurdismo gerou e alentou pequenos nababos
das escolas. Eles alaparam-se no poder — o que lhes foi conferido pela lei e o
que resultou do medo de muitos professores —, criaram a sua corja de serviçais
acéfalos, e montaram autênticos viveiros de números, números que chegam às
montras e ao consumidor de todas as maneiras e feitios. Se os números vestirem
bem, o resto pouco interessa.
Sei que há escolas cujos diretores
delegaram as suas competências disciplinares nos diretores de turma, para
poderem dedicar-se, a tempo inteiro, a coisas muito maiores, aquelas que se
fazem no insondável espaço dos seus alquímicos gabinetes. Não sei, nem quero
saber, que coisas são essas, pois já noutros tempos nos diziam para não nos interrogarmos sobre o que
faziam os nossos superiores, porque eles tinham preocupações e deveres que nós
não poderíamos sequer imaginar. O que eu sei é que em cada uma dessas escolas,
há um Pilatos na tribuna a ver, lá em baixo, tantas cabeças quantas sentenças. E
sobre elas, há um enorme apagador.
MORAL DA HISTÓRIA
Muitas escolas, sobretudo aquelas que se
fizeram “indisciplicultoras”, estão a tornar-se insuportáveis para os
professores que não quiseram, nem querem, amacacar-se. Nessas escolas, não
adianta os professores encostarem-se ao muro das lamentações. É a hora de se
começarem a organizar para tirar os nababos do poder e dar uma vassourada bem dada
em toda a macacada que pula e pulula à sua volta. É esse o caminho.
Luís Costa