É difícil escrever sobre uma flor, dada a sua beleza e fragilidade. Mas nela gostamos de demorar os olhos quando a Primavera as traz em botão, sobretudo as mais campestres, para que o ar se engalane de aromas e de cores.
Foi um pouco o que aconteceu com a leitura de "Flor de Burel". Primeiro, a atracção imediata pelo título; depois, a curiosidade e a leitura galopante, com pasmo e lágrimas; finalmente, a rendição a uma flor delicada, mas robusta no carácter e nos afectos, impulsionadora de uma história e de um "amor de perdição", fazendo jus à terra onde nasceu e foi semeada.
"Flor de Burel" é um hino narrativo de amor aos pais, à família, às raízes, à paisagem, ao povo barrosão, corporizado pela personagem David, numa viagem física, que é também um percurso psicológico em busca do seu passado, uma revisitação de si próprio, e uma tentativa de reencontro com o pai, que descobre e recria, através da imaginação e da saudade, sabendo que só aí o poderá agasalhar.
A efabulação atinge o expoente máximo no desfecho, que nos sufoca de encanto e de pranto, quando se materializa e consubstancia a explicação do título, que não desvendo, para não quebrar a sedução a esta flor que será, afectiva e literariamente, eterna.
Isabel Fidalgo
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Com um excepcional talento narrativo, Flávio Monte acompanha-nos numa viagem às terras de Barroso e sua gente, nos anos 40, dando vida ao romance entre Amélia e Simão, em toda a sua plenitude. Trata-se de uma história absorvente, por vezes terna, recheada de emoções e descrições de uma beleza inebriante, capaz de prender, da primeira à última página, os sentidos de qualquer leitor.
Utilizando uma expressão do próprio escritor, a propósito de Pitões das Júnias, “Flor de Burel” é um autêntico «bálsamo para a alma»!
Uma obra absolutamente notável e cativante.
Clara Amorim
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A fidelidade à terra e às raízes é, indubitavelmente, a seiva estimulante do escritor Flávio Monte, desterrado do berço, como ele próprio afirma, tentando sobreviver pelo reencontro com a memória plena de espaços, gentes, rostos, vozes, sons, cores, palco da sua identidade genuína e criadora. Prodigiosa é essa memória, cerne de uma cumplicidade afectiva com a terra desertificada e porta-voz de um povo, cuja dureza de vida se reflecte nos rostos rasgados pelos sulcos de pobreza e solidão.
A linguagem assume os contornos dessa realidade, que é luto e dor, mas também asa e libertação, projectando-se o fremente anseio de plenitude do poeta, no cavalo alado que pisa o solo barrosão.
Ainda numa linha de continuidade com Flor de Burel, Livro d’Água é uma elegia ao amor mais profundo do ventreberço, cuja musa inspiradora é mistificada no altar da alma do poeta, num afecto que transcende a própria Altura.
Isabel Fidalgo
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Aproximei-me do solitário gigante para sentir a sua presença, a aspereza da sua pele encarquilhada, ver de perto as suas rugas, ouvir o cicio do seu sonhar. Algumas cicatrizes, que as invernias tornaram indecifráveis, deixavam adivinhar primaveras floridas, cheias de pólen e de perfume, beijos fervorosos e furtivos, muitas promessas de amor, muitos sonhos tecidos. Encostadas ao seu tronco, duas pedras sós, abertas para o céu, eram um livro aberto, farto de páginas grávidas de poesia, de poemas vividos que só os poetas sabem ler: inquietas ondulações da alma, segredos moídos, lamentos bebidos, cavernosos desgostos, muitas horas murmuradas, muitas saudades gotejadas no colo discreto daquele mudo eremita, que era, de facto, avô e confessor dos filhos daquele serrano gineceu.
O meu olhar salgado desviou-se instintivamente para a muda sonolência do casario — juntinho como um rebanho —, em cujos telhados algumas velhas chaminés enlutadas, desfiando finos fios de escura lã, que uma mão divina parecia dobar, afinal, também se arvoravam para o céu, exauridas de cor, chorando sâmaras!
Flávio Monte, Alto-Relevo, pág. 13


