Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

Fidelíssimo



Regressei à minha velha trincheira: o Dardomeu. Foi uma decisão mais afetiva do que intelectual, mais do coração e do instinto do que da razão.
Peço muita paciência aos meus 86 seguidores, pois não é fácil seguir alguém tão irrequieto como eu. Se acharem que é tempo de dizer “Basta” à minha deambulação… Se acharem que é tempo de dizer “Basta” a todas as outras malfeitorias…
Nos próximos tempos, darei aqui notícia das publicações do Dardomeu. Depois, progressivamente, deixarei o campo ao meu pseudónimo literário, Flávio Monte, que é livre de dizer e fazer o que quiser desta sua residência. Tenho a certeza de que a sua sensibilidade — tão semelhante à minha — não deixará de espelhar os mesmos sonhos, os mesmos ideais e a mesma indignação também.
Sou inconstante no acessório, mas mantenho-me fidelíssimo ao essencial. E resisto!
Luís Costa

Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Viva Zeca Afonso!



Celebrar Zeca Afonso, mais do que lembrar as suas canções, a sua música capaz de nos meter a mão no peito e abanar o coração, deve ser, creio eu, mostrar que ele está vivo em cada um de nós. Para mim, que aspiro a ser poeta, celebrar Zeca Afonso é, sobretudo, versejar à sua maneira, fazendo da minha escrita uma arma, mas também um elixir de força e de união. É o que eu tenho tentado fazer desde que cavei trincheiras na Internet. Foi o que fiz, por exemplo, em dezembro de 2008, com este poema que hoje aqui vos deixo novamente.


     Senhores das Trevas

Filhos das trevas senhores sem rei
Sem horizontes nem finidade
Vivem da vida roubada à grei
Vivem do sangue chupado à lei
Da insídia e da feridade

Filhos das trevas senhores da morte
Predadores cegos e desleais
Têm na noite aliado forte
Cúmplice antiga velha consorte
De fartos banquetes canibais

Filhos das trevas senhores do breu
Fiéis herdeiros da escuridão
Têm na noite o seu apogeu
Tribuna antiga e coliseu
O altar supremo da traição

Luís Costa

Primeira publicação: 10/12/2008

Um 13 Nunca Vem Só



No dia 12 de setembro (véspera de 13) de 2011, preguei esta partidinha precoce ao Passos e ao Relvas. Depois do que vi e ouvi ontem na TV — o relvado em todo o seu esplendor — achei que a chalaça merecia honras de reedição.

Luís Costa

Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

Graças e Desgraças

Rubens - "As Três Graças"

Visto que hoje foi publicado o Decreto Regulamentar n.º 26/2012, sobre a avaliação de desempenho docente, seria inadmissível não falar aqui do novo regime de autonomia e gestão, aquele que o nosso ministro entendeu sujeitar à duríssima prova da discussão pública.

Como já sabem os meus leitores, novidades não é neste blogue. Se as quiserem, têm de ir aí um determinado hipermercado ou aos blogues da concorrência. Por acaso, um deles, um destes dias, até já disse, a propósito da avaliação do diretor, que é pois mui natural que Sua Potência seja avaliada pelo Conselho Geral, visto que as direções regionais são uma espécie não protegida em vias de extinção. Isto, sim, é que são grandes novidades! “E quem mais poderia avaliar o diretor?”, perguntava, com graça, o mesmo blogueiro. Mas que ganda ponto! E ainda Passos Coelho não lhe concedeu tolerância! Imaginem se o tivesse feito!

Santana Castilho, na sua crónica “A confissão de Passos Coelho”, atónito com tanta inovação, constata que, doravante, os diretores vão poder ser avaliados por “um bombeiro, um canalizador ou um polícia”. Não se admire, Professor, nem seja piegas! A democracia veio para ficar, custe o que custar!

Aproveitando o elã, eu, que teimo em não perceber nada logo à primeira (e raramente dispenso um desenho), deixaria aqui três perguntitas e meia:

Primeira Perguntita – Então é válido que aqueles que são avaliados pelo diretor depois também o avaliem a ele?

Primeira Perguntita Ponto Um – Isto não será promiscuidade avaliativa?

Segunda Perguntita – Alguém se importaria que fosse a IGE a avaliar o diretor?

Terceira Perguntita — E se os diretores não fossem avaliados por ninguém lá das alturas (como acontecia com os pré-históricos presidentes de conselho executivo) e, em vez disso, se sujeitassem à ditadura do voto secreto e universal?

Meia perguntita – Viria mal ao mundo, ou nem por isso?

Só perguntei!!!

Luís Costa

Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

Tolices de Poeta



MOTE
As palavras… Tanto já foi dito sobre elas! Tantos poetas as disseram e desdisseram! Ó palavras, que estranha sina a vossa!

GLOSA
Há dias, na minha escola, tal como acontece em todo o país, foram dados a conhecer os resultados de um inquérito oficial à comunidade escolar. Vinham separados, de acordo com as seguintes amostras (cito):
“- alunos do 1.º ciclo;
- alunos dos 2.º e  3.º ciclos;
- pais e encarregados de educação;
- trabalhadores”.

Confesso que a palavra “trabalhadores” me deu volta ao estômago. Trabalhadores! Uns são “alunos”, outros são “pais e encarregados de educação” e os restantes são uma espécie de massa indistinta, uma amálgama desclassificada, multifuncional, metida no mesmo saco. Trabalhadores! Ai, palavras! 

Não tenho nada contra o facto de ser considerado trabalhador  — eu próprio me considero muito trabalhador —, mas quando faço parte de uma organização, de uma instituição cujos membros têm papéis e funções específicas, eu exijo que seja respeitada a minha identidade. Então os pais e encarregados de educação não são trabalhadores? Ai, palavras!

As nevadas, mesmo as grandes, não caem subitamente: primeiro, surgem algumas gotículas de chuva, ínfimas e leves, que parecem cirandar no céu; depois, vem a água-neve; finalmente, quase sem transição percetível, aparecem os farrapos, grandes e abundantes. E a terra, num instante, fica coberta, inerte, rendida. Certas palavras, tal como a água-neve, também trazem água no bico, são prenúncio de tempestade. Ai, palavras!

Quando vi esta palavra sobre os esquadrões estatísticos dos resultados do inquérito, por impulso, saí da sala para ver a sinalética que estava sobre a porta. Felizmente, ainda não fora alterada para “Sala de Trabalhadores”! Tolices de poeta! Não liguem!

Extrema-Unção



Estou, novamente, com uma certa propensão para concluir que… melhor seria se eu entregasse este blogue a um padre. Há demasiada gente a precisar de uma extrema-unção.

Desculpem a franqueza!

Luís Costa

Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

Crónica de Santana Castilho


A confissão de Pedro Passos Coelho

Passos Coelho perguntou, com legitimidade, referindo-se a José Sócrates: “ Como é possível manter um Governo em que o primeiro-ministro mente?” Teimo na redundância de retomar factos sobejamente conhecidos, que justificam devolver a pergunta a quem a formulou e é, agora, primeiro-ministro. Porque a memória dos homens é curta e a síntese é necessária para compreender o que virá depois.

Passos Coelho enganou os portugueses quando disse que não subiria os impostos, que não reduziria as deduções fiscais em sede de IRS, que achava criminosa a política de privatizações só para arranjar dinheiro, que não contariam com ele para atacar a classe média em nome de problemas externos, que era uma “grande lata”, por parte do PS, acusá-lo de querer liberalizar os despedimentos, que não reduziria a comparticipação do Estado nos medicamentos, que não subiria o IVA e que falar de cortar o subsídio de Natal era um disparate. Passos Coelho enganou os portugueses quando, imagine-se, acusou o PS de atacar os alicerces do Estado social, censurou a transferência do fundo de pensões da PT para o Estado, acusou o Governo anterior de iniquidade porque penalizava os funcionários públicos e os tratava “à bruta”, responsabilizou as políticas socialistas pelo aumento do desemprego e das falências, recusou pôr os reformados a pagar o défice público ou garantiu que o país não necessitava de mais austeridade. Tudo retirado de declarações públicas de Passos Coelho, sustentadas documentalmente. Tudo exactamente ao contrário do que executou, logo que conquistou o poder.

Quem defende Passos Coelho argumenta, de modo estafado, que os pressupostos mudaram e que ele foi surpreendido pelo que encontrou quando tomou posse. A justificação é inaceitável. Porque só é sério prometer-se quando se está seguro de poder cumprir e porque existem declarações públicas de Passos Coelho afirmando que conhecia bem a situação do país. Todavia, esta questão foi definitivamente ultrapassada pelos acontecimentos recentes. Com efeito, o percurso começa agora a ser esclarecido. O qualificativo “piegas”, com que Passos Coelho injuriou o povo que lidera, não é fruto de um discurso infeliz. É, antes, uma peça de um puzzle de conduta política, cuja chave está numa frase inteira. Passos Coelho pronunciou-a quando, referindo-se ao programa da troika, afirmou: “… não fazemos a concretização daquele programa obrigados, como quem carrega uma cruz às costas. Nós cumprimos aquele programa porque acreditamos que, no essencial, o que ele prescreve é necessário fazer em Portugal …” Com esta frase, Passos Coelho tornou claro um radicalismo ideológico que amedronta. Com esta frase, Passos Coelho inviabilizou o argumento da mudança de pressupostos e confessou, implicitamente, a sua manha pré-eleitoral. O seu “custe o que custar” é, tão-só, uma variável discursiva da máxima segundo a qual os fins justificam os meios. O fim de Passos, confessado agora, sempre foi o que acha ser “… necessário fazer em Portugal …” Não como inevitabilidade imposta pelos credores, a contragosto de um primeiro-ministro que sofresse com o sofrimento do seu povo. Mas como convicção radical de uma ideologia que, para se impor no seu fim, aceitou o meio de mentir com despudor. Ficámos agora a saber que Passos Coelho mentiu conscientemente. Ele o disse.

in Público, 15/02/12

A Mata de Roquelanes



(Aos meus colegas)
Na mata de Roquelanes — dizem — houve em tempos um tesouro. Por ele, três irmãos se se desuniram, se atraiçoaram e se mataram. E ele lá ficou, quase intacto, velando o tempo. Reza a história que ele ainda lá está. Porém…
Passaram muitos anos pelas árvores da mata de Roquelanes. Hoje, as suas feições ostentam as marcas indeléveis do tempo que passou. Onde outrora apenas havia árvores, esbracejando, folheando e avolumando a esférica verdura no azul oxigenado do céu, há agora novos entes, ali deixados pelo acaso, a assenhorar-se da paisagem. São as heras.
As heras são cobras vegetais. Elas rastejam, elas trepam, elas insinuam-se e espalham-se por todo o lado. No início, a sua monótona folhagem parece vestir de ricas peles os esguios troncos das árvores. E o quadro deslumbra de romantismo o olhar de quem passa, de quem contempla, de quem ali se apeia do tempo para se retemperar no colo da natureza. Foi o que sucedeu na mata de Roquelanes. Porém…
Tal como as cobras, as heras da mata de Roquelanes cresceram, afilharam e espalharam-se silenciosamente, em movimento quase inerte pelos interstícios do tempo. Tal como as cobras, elas foram-se enroscando aos troncos; depois, aos ramos mais grossos; seguiram-se as pernadas mais finas; finalmente, as vergônteas cimeiras. Tal como as cobras, que trazem no corpo invertebrado a mudez da morte, as heras foram apertando, foram estrangulando, asfixiando os últimos sopros de vida de muitos membros do vetusto arvoredo.
Hoje, Roquelanes parece um bosque de arbóreos esqueletos em lenta digestão. Entre o corpo réptil das heras predadoras e a casca seca e carcomida das árvores sufocadas, prolifera uma múltipla fauna minúscula e abjeta de seres cujo destino parece confinar-se a uma existência escura, fechada e larvar. Nesse submundo avesso, há um odor pútrido que denuncia degeneração. Porém…
Porém, ainda há árvores intactas! Talvez elas sejam as guardiãs do tesouro daquela mata. Mondando as heras, salvamos o tesouro de Roquelanes.

Luís Costa

Neste texto, faz-se alusão à mata de Roquelanes do conto “O Tesouro”, de Eça de Queirós. 

Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

Falar de Amor



Falar de Amor
Que te amo
Eu não te digo
Amiúde como querias
Mas de amor
Teço os meus dias
E as minhas poesias
Contigo são

De amar-te
Eu não consigo
Deixar porque não sei
Amar-te
É o meu abrigo
A Estrela que persigo
O meu Fado
E minha Lei

De amar-te
Eu não consigo
Decantar a emoção
Amar-te
É ser contigo
Ser teu rei
E teu mendigo
Fez-se minha condição

Que te amo
Eu não te digo
Muitas vezes eu sei
Mas amo-te
De instinto
E sei e sinto
Que sempre te amarei

Flávio Monte

Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

Grande Medra!



Em incertas e pouco determinadas escolas, os diretores optaram por democratizar o seu supremo poder disciplinar, concedendo-o — por delegação de competências — aos diretores de turma, uma casta de abúlicos que não sabem o que fazer durante as eternidades que o Ministério da Educação lhes concede para passarem umas faltitas, que, rarissimamente, lá acontecem: um ou outro estudante que não tem outro remédio senão faltar, para ficar em casa a cuidar dos avós.
Ora acontece que os diretores de turma, de tão desocupados que andam, não perdem uma oportunidade para dar corda ao relógio e aos neurónios. Por dá cá aquela palha — um aluno que, por exemplo, em vez de dizer “Senhora Doutora” com todas as letras, diz apenas “setora”, com minúscula) — por dá cá aquela palha, dizia eu, esses detês apáticos, mas desejosos de fazer currículo, como é bom de ver, movem logo processos disciplinares aos alunos, castigam-nos sem dó nem piedade, vão-se a eles de forma completamente parcial e injusta, acusam-nos de tudo e mais alguma coisa. Nem pode um professor dizer que o aluno X espirrou na aula, que o detê ripa logo da papelada e zás, abre um processo tão labiríntico ao rapaz, que ele chega mesmo a desejar não ter nascido. Até faz doer o coração! Estas escolas parecem campos de concentração de disciplina.
Não sei quem teve ideia tão hedionda como esta de passar competências disciplinares para os detês. Se ao menos eles andassem sobrecarregados de trabalho e não quisessem nada com processos, ainda vá lá c’os diabos! Se ao menos cada um fizesse as coisas à sua maneira, sentenciando ao seu estilo, de modo a que a disciplina nessas escolas parecesse um catálogo de tintas, e os coitadinhos dos alunos pudessem reinar à vontade, ainda vá lá c’os diabos! O problema é que os detês nessas escolas, não só são autênticas máquinas de atuar, de processar, de torturar, como também agem como se fossem soldados chineses em formatura: parecem um único e um só a decidir. Um assombro! Nenhum diretor consegue tamanha coerência, por muito coerente que seja.
Nessas escolas, pode faltar muita coisa, mas disciplina é coisa que não falta. É tanta que até anda por ali ao pontapé. Só que os putos assim não medram!

Luís Costa

Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

Estupidamente Feliz


"ISTO NÃO É O QUE PARECE"



Primeiro, foram as declarações de Cavaco Silva, que todo o povo ignaro interpretou mal; depois, foi a tirada dramática de Passos Coelho, que todos nós compreendemos de forma muito básica; mais tarde, foram as cuspidelas de Martin Schulz, que chegaram completamente distorcidas aqui à periferia da civilização; finalmente, foi a conversa de Vítor Gaspar, do poderoso Vítor Gaspar, com o ministrozinho Wolfgang  Schäuble , que, pelos vistos, foi interpretada por toda a populaça “analfabruta” de forma muito arrevesada, com extrapolações estapafúrdias e especulações… sei lá… estrambólicas,  "anacreônticas", ou coisa que o valha ou deixe de valer.
Mas quem deu ao povo autorização para pensar? O povo foi feito para trabalhar, debaixo de ordens, e é um pau! Pensar, pensar… Pensar não é para toda a gente! Então interpretar… Interpretar é só para profissionais! Razão têm os professores de Matemática: nós não temos sucesso por não sabermos interpretar os problemas.
Vou deixar-me de interpretações. Para quê? Nunca acerto! É mais ou menos como com os números do Euromilhões, que nunca são iguais aos meus. Quando me atrevo a interpretar as palavras e as atitudes dos políticos, acabo sempre o dia numa bebedeira de frustração. À noite, nos telejornais, e depois deles, os verdadeiros intérpretes, os profissionalíssimos e competentíssimos “semanticistas” do regime, surgem sempre na tela com um alinhamento muito diferente do meu. É um balde!
Doravante, vou esperar primeiro por eles, como quem joga no Euromilhões depois de ver o sorteio. E vou ser feliz, estupidamente feliz!


Luís Costa

Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

Rei Disparate



Passos Coelho vai de asneira em asneira, e o país vai de mal a pior. De vez em quando, lá vai ele a despacho ao gabinete de Merkel, com a tabuada bem sabidinha, deveres bem feitinhos, e, como bom menino que é, com alguns trabalhos adicionais, para ter boa nota nas latitudes e desvalores. Todavia, como a tutora não é quem se pinta, e o rapaz não sabe bem o que anda a fazer, o barco parece ir a todo o vapor, como o Titanic.
Tal como os alunos mais empenhados em participar nas aulas a todo o custo, mesmo que para isso tenham de responder sem pensar, o nosso Primeiro deu em pôr em prática, logo pela manhã, tudo o que lhe vem à cabeça durante a noite. Desde que seja para retirar direitos a quem trabalha, o seu superego fica logo de férias, de feriado ou de ponte. E o homem aproveita a saída do patrão para aviar tudo o que lhe vem à mão.
Um dia destes, lembrou-se da intolerância de ponto no Carnaval. E foi o que se viu e vê: uma insensatez pegada, uma estupidez de ponta a ponta, quer a nível económico quer a nível social. E como uma estupidez nunca fica órfã, o seu progenitor, quando se preza, assume a sua orgulhosa paternidade e dá-lhe assistência vitalícia, contra ventos e marés. Vai ser desautorizado em quase toda linha, pois, felizmente, ainda há quem veja quando o rei vai nu, sobretudo se ele vai nu a ponto de se lhe verem os seus neurónios a ranger. Digo “em quase toda a linha” porque, infelizmente, por muito obtusa que seja uma ideia, por muito escaganifobética que seja uma medida, há sempre quem esteja de acordo, quem apoie e quem aplauda. Há gente para tudo!
Nas nossas escolas, para mal deste desgraçado país, não faltam espécimes destes à cata de tudo o que traga um carimbo em forma de pata de paquiderme para porem sobre os colegas professores. Esses Herr Direktors já estão a acolher o aborto governamental de braços abertos, e a recebê-lo com honras imperiais. Para mal do presente e dos amanhãs deste malogrado país, muitas das nossas escolas estão entregues a caciques de meia-tigela dispostos a tudo fazerem para poderem snifar mais um grama de poder. Pelas amostras, este ano o disparate vai ser rei do Carnaval.
Quando a insensatez ganha foros de insanidade, a DESOBEDIÊNCIA deixa de ser um delito para se tornar uma obrigação moral. 


Luís Costa

Domingo, 5 de Fevereiro de 2012

Os Nababos



Felizmente, a “indisciplicultura” não é apanágio de todas as escolas. Indisciplina, há-a por todo o lado, tal como há ervas daninhas em todas as hortas. Todavia, o que numas escolas é exceção, adventício, noutras é a regra, a cultura dominante. E não é apenas a falta de rigor normativo que gera a indisciplina. Esta resulta também de uma complexa camuflagem, que visa deixar a escola muito bonita para a fotografia dos inspetores. Creio que, visto de cima, o Photoshop é percetível, mas… tudo bem, se acaba bem!
Em muitas escolas, há um generalizado pacto tácito de abafamento da indisciplina, a bem da sacrossanta avaliação externa. Não interessa nada que a instituição faça má figura nas passerelles inspetivas. Pouco importa se, no dia-a-dia, os alunos chamam tudo e mais alguma coisa a professores, funcionários e colegas; pouco importa se há mais barulho do que num mercado; pouco importa se há mais lixo do que numa feira;  pouco importa  se as aulas são, acima de tudo, uma constante “luta” pela ordem, pelo respeito, pelas condições mínimas de lecionação;  pouco importa  se, para poder ensinar, o professor é obrigado a usar sistematicamente a medida cautelar, e sistematicamente com aqueles que nada fazem nem querem deixar fazer;  pouco importa  se estas situações se arrastam sem que haja uma alma que sancione esses alunos; não interessa. O que realmente importa é que nada disto se transforme em papéis de música, para não dar nos ouvidos. Tudo se resolve com conselhos, com avisos, com algumas bananas verbais, com palavrinhas mansas, com frases dúbias, que deixam os alunos a pensar que, afinal, eles até têm razão: o professor é que é demasiado rígido, ou demasiado exigente, ou demasiado “porreiraço”, ou muito chato, ou incompetente, ou não sabe motivar, ou diz coisas que não deve… No final, tudo passa e quase todos passam. Tudo tem de “melhorar”, ainda que não melhore. Para isso, existe o papel, que é o início e o fim de tudo.
Em muitas escolas, à volta de direções bananeiras, cresceu uma fauna amacacada que gosta dos seus frutos. Na maior parte dos casos, estes espécimes foram escolhidos a dedo já com esse fim. Fazem todo o tipo de piruetas e de macaquices, sobretudo se for contra os colegas, a parte com cotação bolsista mais fraca, neste momento. É a lei da sobrevivência, é a lei da selva, é a selvajaria mais absurda.
O lurdismo gerou e alentou pequenos nababos das escolas. Eles alaparam-se no poder — o que lhes foi conferido pela lei e o que resultou do medo de muitos professores —, criaram a sua corja de serviçais acéfalos, e montaram autênticos viveiros de números, números que chegam às montras e ao consumidor de todas as maneiras e feitios. Se os números vestirem bem, o resto pouco interessa.
Sei que há escolas cujos diretores delegaram as suas competências disciplinares nos diretores de turma, para poderem dedicar-se, a tempo inteiro, a coisas muito maiores, aquelas que se fazem no insondável espaço dos seus alquímicos gabinetes. Não sei, nem quero saber, que coisas são essas, pois já noutros tempos nos diziam para não nos interrogarmos sobre o que faziam os nossos superiores, porque eles tinham preocupações e deveres que nós não poderíamos sequer imaginar. O que eu sei é que em cada uma dessas escolas, há um Pilatos na tribuna a ver, lá em baixo, tantas cabeças quantas sentenças. E sobre elas, há um enorme apagador.

MORAL DA HISTÓRIA
Muitas escolas, sobretudo aquelas que se fizeram “indisciplicultoras”, estão a tornar-se insuportáveis para os professores que não quiseram, nem querem, amacacar-se. Nessas escolas, não adianta os professores encostarem-se ao muro das lamentações. É a hora de se começarem a organizar para tirar os nababos do poder e dar uma vassourada bem dada em toda a macacada que pula e pulula à sua volta. É esse o caminho.

Luís Costa

Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012

Carta Aberta aos Meus Colegas




Estimados colegas,
MOTE
O Sol mora lá longe, muito longe, mas os seus quentes cabelos de luz abraçam o universo e anulam as distâncias. Por vezes, há Nuvens negras que nos escondem o ouro do céu que pinta as cores da natureza. Mas as Nuvens que escondem o Sol, também trazem à Terra o seu maná, os dias amenos, os horizontes mais nítidos. E não há Nuvens permanentes, tão permanentes e tão constantes como o Sol. Ao menor desvio, à menor fissura, ele ali está, paciente, seguro, quase eterno, pronto para devolver Iris à Terra.
O Vento é tão invisível quão poderoso. Os seus ataques de fúria são destruidores, arrasadores, mas não é esse o seu poder maior. Subtilmente, delicadamente, ele poliniza, ele leva as sementes para longe, para muito longe, e emprenha a Terra com elas.
A Chuva não é invisível como o Vento. Contudo, embora doce e delicada, também pode ser deletéria. Mas não é esse o seu poder maior. Subtilmente, delicadamente, ela desce pelos mais ínfimos poros da Terra, amamenta os seus mais ínfimos esporos, e faz o mistério da vida no reino do silêncio e da escuridão.
A Terra é o ventre omnipotente.
O Tempo é eterno.

GLOSA
Um dia, os homens vieram com as suas máquinas arrasadoras, e rasgaram a pele da Terra. Depois, cobriram-na de negro e espesso Asfalto. Por fim, cilindraram-no repetidamente, pesadamente, sufocantemente, para tornar estéril o miolo do ventre.
E assim foi, durante algum tempo. E durante esse tempo, tempo imóvel, mudo e sem estações, aquele chão foi apenas cemitério de luz, de calor e de vida. Parecia que a morte se sepultara e eternizara ali. Parecia. Porém, o eterno Tempo não parou. O Tempo juntou à sua roda o Vento, as Nuvens, a Chuva e o Sol. E todos ali ficaram, o tempo que o Tempo quis, a falar da Terra.
Um dia, tão dia como o dia que trouxera os homens e as máquinas, subtilmente, delicadamente, silenciosamente, o Vento trouxe as Nuvens, e as Nuvens trouxeram a Chuva. Depois, o Vento deu o braço às Nuvens e levou-as em passeio. Então chegou o Sol, que poisou os seus quentes cabelos de luz no Asfalto. Timidamente, ele desenhou dois lábios negros, mas, de seguida, emudeceu e voltou à sua uniforme e compacta negritude. Porém, o Vento voltou, e trouxe asNuvens, que trouxeram mais Chuva. E o Vento voltou a levar as Nuvens, e o Sol também voltou, e tornou a voltar, e voltou sempre até o Asfalto lhe oferecer um sorriso.
Bastou um sorriso.
E a Terra deu à luz um filho do Sol.

Sempre ao vosso dispor.
Luís Costa

Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012

Impessoas



Impessoas
As pessoas pensam
Que é melhor não pensar
Não refletir
Concluir
Opinar

As pessoas pensam
Que é vão contestar
Vão discutir
Intervir
Reclamar

As pessoas pensam
Que é inútil lutar
Inútil resistir
Exigir
Arriscar

As pessoas
Deixaram de acreditar
Esquecem
Obedecem
Parecem vegetar

As pessoas
Deixaram de sonhar
Escurecem
Arrefecem
Estão a caducar

As pessoas
Não estão boas


Flávio Monte

Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

Crónica de Santana Castilho


Quando a política se torna porca



1. O período de discussão pública (que substantivamente foi privada) da proposta de revisão curricular terminou. Seguir-se-á o que já estava decidido: a imposição do “cratês”, em discurso indirecto, que o directo pertence a Gaspar e demais estrangeirados. Como fecho de brincadeira e para memória futura, eis o que me parece essencial:

- O que Nuno Crato propôs é pontual e não tem outro fim que não seja a redução das despesas com a Educação. Se pretendesse mudar a política bipolar em que temos vivido há 37 anos, teria começado por envolver os profissionais da Educação na definição das metas de chegada para os diferentes ciclos do sistema de ensino e teria seguido, depois, um processo técnico óbvio: desenhar uma matriz de disciplinas, conceber os programas respectivos e definir as cargas horárias que os cumprissem. Crato inverteu o processo, como faria o sapateiro a quem obrigassem a decidir sobre currículo: fixou as horas lectivas e anunciou que ia pensar nas metas, sem tocar nos programas. Lamento a crueza, mas mostrou que a sua coluna de cientista é gelatinosa: um bafo de troika e um sopro de Gaspar bastaram para vergar a coerência mínima. A prosa que sustentou a proposta em análise e o fim das “competências essenciais” permitiu evidenciar que a imagem de rigor de Nuno Crato foi, apenas, uma fátua criação mediática. O que disse é vago e inaceitavelmente simplista. O que são “disciplinas estruturantes” e por que são as que ele decreta e não outras? Quais são os “conhecimentos fundamentais”? O que são o “ensino moderno e exigente” ou a “redução do controlo central do sistema educativo”, senão versões novas do “eduquês”, agora em dialecto “cratês”? Fundamentar e definir são acções que Crato reduz ao que ele acha. O cientista é, afinal, um “achista”. Crato cortou e Crato acrescentou aleatoriamente.

- Chegaram ao sistema de ensino os primeiros jovens que aí vão ser obrigados a permanecer até aos 18 anos, quer queiram quer não. Se prolongar a escolaridade obrigatória foi um disparate, omitir das alterações curriculares qualquer reformulação do ensino profissional e pós-laboral é simplesmente irresponsável.
in Público, 01/02/2012

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

Os Indisciplicultores


Plantação de Maconha

À semelhança do que acontece com toda espécie de culturas, a “indisciplicultura” não existiria sem “indisciplicultores”. Eles estão nas várias fases do processo, com papéis muito específicos, responsabilidades proporcionais ao poder de decisão de cada um e riscos de saúde condizentes com a proximidade ou distância face ao produto final.
No setor da produção de sementes, estão os altos decisores, aqueles que produzem os germes. São eles que, com o seu trabalho de génese, acabam por determinar o sucesso ou insucesso de toda a cadeia produtiva. Se quisessem, com maior ou menor subtileza, eles poderiam pôr uns a trabalhar para o boneco, e a fazer de bonecos, enquanto outros, destinados a serem bonecos na vida, iriam passando de ano para ano, passando as quatro estações na bonecada. Mas não querem, pois estes produtores das sementes da indisciplina são muito profissionais e, no meu entender, é a eles que devemos a alta produtividade atual, que já conta com vários milhares de toneladas de excedentes de produção. Todavia, como são pessoas muito modestas, nunca aceitam os louros do seu trabalho, devolvendo-os sempre aos trabalhadores que estão no terreno. O altruísmo, quando é genuíno, é tão precioso que chega a ser comovente.
A meio do processo, estão os dirigentes das quintas, das hortas e das estufas, onde cresce esta autêntica pérola do desenvolvimento nacional, este ventre de um segundo futuro quinhentista. Diz o povo, e com razão, que “mais vale um bom mandador do que um bom feitor”. Estes “mandadores”, quando são competentes a valer, tratam as sementes com tal carinho, que a indisciplina parece nascer e crescer com tanta beleza e com tanta espontaneidade como os lírios do campo. É um assombro! Então, quando conseguem passar o talento para os seus subordinados… o campo parece um paraíso na Terra: enquanto a indisciplina cresce livremente (múltipla, viçosa e exuberante), os agentes vão entoando, para o lado, lindos e bucólicos trinados de assobio. Ah, fosse eu um Camões, ou apenas um Caeiro! Se tivesse tal talento, como eu “sonetaria”, como eu “poetaria”, com a minha pena, os devidos louros de indisciplina que também eles não têm nem querem ter.
No final da cadeia de produção, a meter pés e mãos na terra, estão os braçais. Os melhores de entre os melhores também se distinguem à distância, se for lateral, por causa do assobio adubador e reprodutor. Um olhar mais atento consegue ver a indisciplina a crescer em compasso perfeito com o assobio. É um deslumbramento artístico inigualável, indescritível. Todavia, são estes os menos privilegiados de toda a cadeia de produção e, simultaneamente, os que mais riscos correm: se a erva daninha da disciplina ameaça a produção, são eles os culpados; se alguma doença ataca a plantação, são eles que a contraem também e a levam para casa; são eles que sofrem os efeitos secundários dos pesticidas. Mas, tal como não há bela sem senão, também, por vezes, há vários anões com uma bela: é o caso dos sete anões e da Branca de Neve. Pois é, a cadeia de produção, além de boa, é generosa e magnânima: os braçais ficam sempre com os louros todos. E está bem, coitados! Está muito bem!
Tudo está bem quando acaba bem!
FIM

Luís Costa

Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Indisciplicultura



O Expresso deste sábado voltou a trazer o tema da indisciplina para a ordem do dia. Todavia, não é para comentar o conteúdo da Revista que eu decidi trazer esta questão, uma vez mais, a este espaço, estragando assim a noite de domingo aos meus generosos leitores. Vou restringir, por hoje, a abordagem ao contexto escolar, e pegar no problema à minha maneira, como é meu timbre (para o bem e para o mal).
A indisciplina grassa nas escolas com mais pujança do que as ervas daninhas numa horta, e grassa há tanto tempo que até já desgraça. Seria tentador perguntar de imediato porquê, mas não vou fazê-lo. Vou deixar essa pergunta para outro(s) artigo(s). Hoje, sem tirar conclusões perigosas, sem fazer juízos de intenção que não posso provar, vou limitar-me a perguntar quem sai beneficiado com esta escandalosa situação. E vou tentar responder, como é óbvio, com algumas constatações. Embora pareça estranho que a indisciplina escolar possa dar proveito a alguém, o facto é que, tal como acontece com todas as misérias deste mundo, há quem se dê muito bem com ela.
No meu entender, os primeiros beneficiários são aqueles que querem ver fora do sistema os professores mais experientes (que também são os que ganham mais). É irrefutável que, depois de todo o bullying exercido pelo próprio Estado, e que empurrou muitos profissionais para a reforma antecipada, a indisciplina funciona como uma espécie de segunda linha de ataque. Quem, pela idade, ou por alguma teimosia, resistiu ao primeiro, acabará por sucumbir ao segundo, tal é a degradação pedagógica que se está a atingir. Quem encontra condições mínimas para se ir embora vai mesmo, em nome do respeito e das memórias que quer levar.
Se os primeiros beneficiários veem algum retorno por parte dos docentes que vão aligeirando os quadros, os segundos recebem-no do lado dos discentes: são aqueles que têm interesses no ensino particular. Como facilmente se depreende, a indisciplina nas escolas oficiais empurra muitos alunos para as escolas particulares, que crescem e florescem a todos os níveis. E nem a crise chega para estancar tamanha hemorragia. Por este andar, em muito poucos anos, as diferenças serão abismais.
Na minha cândida e provinciana perspetiva, os menos beneficiados com este lodo educacional são os alunos, todos os alunos cujos pais, ou encarregados de educação, não têm dinheiro para fazer opções. Doravante, não sei por quanto tempo, muitos “remediados” vão ter de beber o seu próprio fel para conseguirem algo na vida, e os pobres, esses, só vão poder voar com asas de galinha. Haverá sempre quem o consiga, mas esse feito não vai ser regra.   
São estes os melhores frutos da “indisciplicultura”!  


Luís Costa

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

Kavako não veta lei



Como tenho andando muito “sério”, a fazer chorar os meus leitores, hoje decidi fazer uma cândida brincadeira, para desopilar. Cantem comigo, que não vão arrepender-se. 
Reiniciem a música. Um, doiiiiis, três!
DVD Galinha Pintadinha: "O Sapo não lava o pé"


Kavako não veta lei,
Não veta porque não quer,
Ele mora lá em Belém
Não veta lei porque não quer.
Mas que chulé! 
Chiiii! Esta música do Kavako está muito fácil, não está? Vamos tentar cantar usando só uma vogal? Então vamos começar pelo A.
Kavaka na vata la,
Na vata parca na ca,
Ala mara la a Bala
Na vata la parca na ca.
Mas ca chala!

E agoooora, usando só o E. E assim por diante.

Keveke ne vete le,
Ne vete perque ne que,
Ele mere le e Bele
Ne vete le perque ne que. 
Mes que chele !

Kiviki ni viti li,
Ni viti pirqui ni qui,
Ili miri li i Bili
Ni viti li pirqui ni qui. 
Mis qui chili !

Kovoko no voto lo,
No voto porco no co,
Olo moro lo o Bolo
No voto lo porco no co. 
Mos co cholo!

Kuvucu nu vutu lu,
Nu vutu purcu nu cu,
Ulu muru lu u Bulu
Nu vutu lu purcu nu cu. 
Mus cu chulu !

Luís Costa